De: Mário Yoshinaga
Data: Thursday, October 25, 2007 12:27 PM
Assunto: Resposta a Mauricio Soares Alito

Caro Maurício,

Pelo que você coloca em seu e-mail,

“O meu enfoque é entender o funcionamento do sistema existente, definindo e quantificando os espaços livres públicos, distinguindo os reflexos que o sistema apresenta no meio urbano. O processo de produção e gestão desses espaços livres também é de grande importância.”, eu tenho pouco a contribuir para o seu trabalho, mas vou tentar.

Gostaria de ajuda-lo, e nesse sentido, recomendo que visite Guarulhos. Deixe o seu carro na estação de Metrô Armênia e tome o ônibus ou Van para o Centro de Guarulhos.Você perceberá, de início, o tempo “real” de deslocamento da maioria dos guarulhenses entre a capital e a cidade-bairro Guarulhos, como várias outras da grande São Paulo. Quanto custa a passagem, quanto custa de tempo de vida gasto nesse deslocamento. Será o seu primeiro convívio com essa população que vive na periferia metropolitana. Converse com eles, desde o momento da fila de espera, depois já no ônibus, esperando pela sua partida. Você pode evitar o horário de rush, para não sofrer o desconforto de viajar mais de 40 minutos em pé.

Quando estiver no ônibus em viagem para Guarulhos, você provavelmente não identificará as divisas dos Municípios, tampouco qualquer característica que indique estar em São Paulo ou em Guarulhos. Assim, as áreas públicas “livres?” que você procura em Guarulhos, aparentemente não se diferenciam das de Sampa.

Chegando ao Centro de Guarulhos, você perceberá que existem algumas referencias urbanas como a Catedral, a Igreja do Rosário e a Praça Getúlio Vargas, que formam um triangulo que se pode chamar de centro antigo. Esse centro triangular está num plano inclinado, voltado para o vale onde está a baixada do Tietê, a Rodovia presidente Dutra, a Rodovia Ayrton Senna, e o Parque Ecológico do Tietê.

Você vai perceber que todas as linhas de ônibus passam pelo Centro, e muitos passam pela rua em frente à Catedral, que liga os acessos rodoviários mais antigos de Guarulhos, vindo do bairro da Penha, pela Avenida Guarulhos, e pela via que liga a Vila Galvão aos bairros da Zona Norte de São Paulo.

A Rua D. Pedro II é a mais movimentada do Centro, tendo uma quarta parte dela transformada em calçadão para pedestres. Por causa disso, muitos ônibus foram desviados, para outras ruas, aumentando o seu percurso, e também o desconforto dos usuários do transporte coletivo. Se o projeto do calçadão precisasse de um EIA/RIMA, devido ao aumento de ruídos e de poluição dos escapes dos ônibus na área central, provavelmente não teria sido aprovado.

O Centro tem uma legislação que favorece os donos dos imóveis, em detrimento da qualidade urbana. Praticamente “tudo”é permitido em termos de construção: sem limites de recuos, apesar de calçadas muito estreitas, e sem limites de altura – apenas o espaço aéreo limitado pela Aeronáutica, devido às operações de vôo. Uma vez que já usufruem de todas as vantagens de edificação, torna-se impraticável qualquer modelo de benefícios em projetos de Desenvolvimento Urbano.

A concorrência que Guarulhos sofre em relação a São Paulo tem sido muito forte, em especial no que se refere à serviços de qualidade e produtos de valor agregado. Os bons profissionais, de uma maneira geral, acabam atraídos para o mercado de Sampa, onde encontram maior capacidade de consumo, quanto melhor o produto oferecido.

É triste constatar, mas a qualidade pode estar em Guarulhos, mas não é de acesso comum para a população local. Exemplo disso é o comércio de luxo que existe nas lojas do Aeroporto Internacional, que só pode ser acessado pelos guarulhenses desde que se disponham a pagar estacionamentos tão caros como das áreas nobres de Sampa. A infraero não se interessou em facilitar o acesso dos guarulhenses às suas lojas, apesar de solicitado por oficio, conforme anexado no artigo que você deve ter lido no site do Vitruvius.

Um outro exemplo é o desenvolvimento do comercio ao longo da Rodovia Dutra, e que se destina ao consumidor de outros municípios vizinhos, e que atende também os guarulhenses. Algumas dessas lojas estão de costas para os guarulhenses, que as acessam pela Rodovia. Assim é o Shopping da cidade, na qual os guarulhenses se sentem em terra estranha, e onde encontrar algum conhecido pelos corredores é uma surpresa, apesar de estar em território guarulhense.

O que parece adequado é caracterizar o Centro como cidade do interior. Retirar dela as lojas de Rede – pois as mesmas já estão nos Shoppings – e incentivar o adensamento de pequenas lojas, objetivando criar um atrativo próprio, diferenciado de shoppings e de outros comércios de bairro da Capital. Adensar o centro com o pequeno comércio, promovendo a ocupação do miolo de quadra – que estão atualmente sub-utilizadas. O Centro Antigo, teria como chamariz o cenário do comercio do interior, porém seus mini-empresários teriam de sair da atual acomodação e receber treinamento para serem eficientes e lucrativos.

Ao mesmo tempo, a cidade pede o desenvolvimento de um novo centro. Ela já está em formação na proximidade de Praça Quarto Centenário, onde se implantaram os Hotéis, por conta do Aeroporto, mas que ainda não atraiu os serviços no seu entorno. Guarulhos tem poucas opções de serviços de qualidade para esse nível de publico, como casas de show e restaurantes. A elite local costuma freqüentar os cinemas, teatros e restaurantes de Sampa, e nem mesmo o shopping conseguiu reverter essa cultura do entretenimento de melhor qualidade. Existe o potencial para esse mercado, mas é primordial que o Município invista e incentive a formação de uma área nobre.

Um local adequado seria desenvolver um Projeto Urbano ao longo da Avenida Aniello Praticci, transformando-a em Acesso da Cidade, uma mini Avenida Brigadeiro Faria Lima ou Avenida Carlos Berrini, com prédios de escritórios e de Hotéis e outros serviços. A Prefeitura deveria investir num Centro Cultural de Alto Padrão, administrado pelo grupo hoteleiro.

Visite as praças Quarto Centenário no Centro, a Lagoa dos Patos em Vila Galvão, o Zoológico e a Praça dos Mamonas no Parque Cecap ( Projeto de Vilanova Artigas).

Faça caminhadas ao redor do centro, chamado de centro expandido, e converse com alguns moradores antigos, lojistas e jovens nas escolas, como a do Ginásio Estadual ( centro) projetado por Artigas. Converse com o atual Secretário da Cultura, e o jovem Secretário de Esportes do Município.

Visite o Aeroporto Internacional e converse com Assistentes Sociais e Arquitetos da Infraero.

Guarulhos é um município com muitos potenciais. Esses potenciais, se bem explorados poderá levar à sua diferenciação em relação aos outros municípios limítrofes. Pode-se citar como potenciais a encruzilhada de rodovias importantes como a Ayrton Senna, Pres. Dutra e a Fernão Dias; o maior Aeroporto da América do Sul; grande área verde de continuação da Serra da Cantareira; Parque Ecológico do Tietê e a diversidade do seu Parque Industrial. A terceira economia do Estado de São Paulo e a segunda maior população do ESP merece obras de estruturação à sua altura. Obras que contribuam para torna-la cada vez mais autônoma, competitiva e com personalidade própria.

Ande muito, caminhe muito pela cidade. Deixe de lado os maravilhosos livros e revistas da Biblioteca da FAU, e respire o ar poluído de Guarulhos, ouça o ruído dos aviões sobrevoando os bairros nobres da cidade, e sinta a urgente necessidade de obras condizentes com o tamanho da cidade, hoje com 1,2 milhões de habitantes.

Perceba a dificuldade de acesso ao Parque Ecológico do Tietê, tão próximo e tão inacessível. E observe o desperdício de áreas vazias do Parque Cecap, e de ocupações feitas pelo CDHU que são um descaso à qualidade urbana pretendida por Artigas para conjuntos habitacionais.

Tome um ou mais dias, e de carro percorra a periferia de Guarulhos, em direção a Bom Sucesso, que fica a Nordeste, assim como o Bairro dos Pimentas, que fica à Sudeste, e encontrará uma outra Guarulhos com qualidade urbana inexistente: sem qualidade, sem urbana.

Espero que eu possa te-lo ajudado um pouco.

[Mário Yoshinaga é autor do artigo original dessa discussão]