De: Rodrigo Faria
Data: Saturday, April 06, 2002 2:39 PM
Assunto: Uma argumentação geral aos comentários

Tenho que agradecer a todos os profissionais que estão participando do debate. É claro que temos formas distintas de participação. Alguns que tomaram uma postura crítica pessoal, como parece ser a de Rodrigo Azevedo. Outros, aliás a maioria, limitada apenas na defesa do arquiteto Oscar Niemeyer. Uns outros, felizmente, como Cristina Meneguello, Assunta Viola e Élvio Araújo que perceberam que o fundamental da minha crítica é justamente o processo político e social no que diz respeito às ações desenvolvidas pelo poder público nas nossas cidades. Uma outra coisa, porém, é para mim mais séria: a total falta de participação dos profissionais que atuam em Ribeirão Preto. Faz entender que nada diz respeito a qualquer um deles. É uma constatação negativa a falta de participação de toda a comunidade acadêmica e profissional da própria cidade de Ribeirão Preto.

Fundamental perceber, como já dito acima, que a maioria das pessoas que enviaram argumentações estiveram limitadas numa tentativa de defender a todo custo a posição e a obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Em nenhum momento eu coloquei em dúvida toda sua obra. Sei da importância do trabalho do Oscar para arquitetura brasileira e mundial. Edifícios como o do Partido Comunista em Paris demonstram sua genialidade. Uma arquitetura que tive a oportunidade de penetrar em sua materialidade. Outros como os projetos em Belo Horizonte, e tantas outras cidades. Não devemos, por outro lado, adotarmos uma posição meramente contemplativa. Existem obras que em talvez em nada podem promover de fundamental para a cidade no momento da sua materialização. Exemplo do Memorial da América Latina: Como bem disse uma amiga paulistana e arquiteta, é um projeto que só funciona em “maquete”, quando a cidade de São Paulo se apaga, durante à noite, e suas luzes são acesas. Uma materialidade desconectada com o entorno, esvaziada. É necessário que críticas fundamentadas ao trabalho de Oscar para nos libertarmos da imagem do gênio intocável. Em relação ao escrito por Ângelo Arruda é lamentável sua posição quanto ao processo de mercantilização da profissão. A política só fala mais alto, pois nos esquivamos de participar do sua construção. Como disse a Professora Maria Stella Martins Bresciani, estudiosa da cidade que tanto admiro, o arquiteto não está mais presente na grande política. Isso, no meu entender contribui para nossa efetiva atuação na sociedade. Quando alguns fazem parte de algum processo político, estão por politicagem. Por interesses econômicos e seus frutos. Uma outra coisa: A cidade de Ribeirão Preto só teve boi no início da sua formação. Lá pelos anos 1850. É sim uma cidade muito rica. Burguesa. Porém uma cidade com problemas sérios de divisão da renda.

Em relação ao texto de Beatriz Angélica, no que diz respeito aos problemas das cidades governadas pelo PT, ainda tenho a certeza de que existem sim ações verdadeiras. Cidades como Porto Alegre, Belém são exemplos de uma prática do Planejamento Urbano efetiva. É só você dar uma olhada no importante estudo da Revista Pólis sobre essas duas cidades. São Paulo não é essa cidade degradada, abandonada, sujo, por problemas nas administrações do PT. São anos de irresponsabilidade política. Maluf, Pitta e tantos outros irresponsáveis que em benefício próprio e de amigos, acabaram com a cidade de São Paulo, que vem agora tentando, com todos os problemas que o Governo Marta Suplicy pode apresentar, voltar a ser bela, justa, humana.

O argumento de Rodrigo Azevedo fica muito mais no campo pessoal que no das idéias. Em estou aqui na minha sugerida imaturidade, esperneando. Estou praticando o meu papel no exercício democrático que o Planejamento Urbano exige. Se ele não participa, seja nos jornais, e outros meios de comunicação, é algo que tem que ser revisto por ele. Eu participo. Tanto aqui no Vitruvius, como nos artigos número 034 e 037, quanto no Jornal Folha de São Paulo, no caderno FolhaRibeirão. Já fiz parte do Conselho Municipal de Urbanismo e outras atividades que participei junto à Faculdade que concluí o Curso de Arquitetura e Urbanismo. Portanto, em nenhum momento abri mão de pensar a cidade. Esse é meu ofício profissional, tanto no Mestrado em História na Unicamp, quanto nas minhas atividades de Ensino, que no momento estou licenciado.

O argumento de Vera Lúcia, fala do orgulho de ter na cidade uma obra de um grande Arquiteto. Não estou discordando do papel fundamental que um projeto de arquitetura pode ter. O problema é como a arquitetura é hoje uma prática alinhada com o processo de mercantilização da cidade. Mera representatividade do grande capital financeiro. Faço a sugestão, para todos que não estão percebendo as verdadeiras problemáticas que estão manipulando a cidade, um estudo sério sobre os problemas que essa tão difundida prática do Planejamento Estratégico produz: Textos como A cidade do pensamento único; Urbanismo em fim de linha, os últimos números da revista Espaço & Debates, da Revista Brasileira de Estudos Regionais Urbanos, entre outras publicações.

Em relação aos textos de Assunto Viola, Elvio Araújo e Cristina Meneguello, devo considerar uma verdadeira compreensão dos problemas que tentei apontar, muito mais relacionados como sugere Assunta, em relação ao IAB na instrumentação de mecanismos democráticos, nas sugestões para Câmaras Municipais; ao problema da ética estar “dividida” para determinados casos como menciona Elvio. Como ele mesmo disse: "ética está acima de tudo"; ou ainda da problemática apontada pela Cristina em relação ao debate social e político e quanto ao fetiche da arquitetura pelos “gênios”.

Quero deixar relatado que meu artigo tem como objetivo contribuir com o debate e a prática do Planejamento Urbano. Mesmo que os apologistas do Planejamento Estratégico Mercantilista, insistam em dizer que ele “não funciona” ou “não existe”. Existe, necessita da participação democrática da sociedade, como forma de pressão aos governantes, e tem por ser também um processo político, todas as interfaces, positivas e negativas, como tal. Acredito no papel transformador que a arquitetura pode ter. Acredito na importância do exercício do Urbanismo, mas aquele urbanismo que não quer mais entender a cidade como “coisa”, tecnicista, como disse o Professor Milton Santos. Nesse papel transformador da arquitetura, deve estar em primeiro lugar, sobretudo no que diz respeito aos projetos públicos, um respeito pelo cidadão e pela cidade. Esse arquitetura “vulgar” que estamos verificando se materializar nas nossas cidades deve ser combatida. Uma arquitetura “fachadista”, estéril, ou então alinhada como já escrito, como possibilidade de construção da imagem do poder financeiro que está tomando conta das nossas cidades e contribuindo cada dia com a exclusão sócio-espacial.

A cidade não é uma mercadoria que pode ser negociada entre alguns poucos interessados no seu valor. Ações e intenções como a do Senhor Nelson Rocha, Secretário de Planejamento Urbano e Ambiental de Ribeirão Preto, devem ser banidas das nossas administrações municipais. Ações como a que ele parece querer implementar para colocar Ribeirão Preto em competição com Las Vegas, ou qualquer outra cidade. Textos como a Professora Ana Cristina Fernandes da Universidade Federal de São Carlos, publicado no último número da revista Espaço & Debates, aponta para uma série de questões em andamento nas cidades brasileira.

Em nenhum momento vou estar contra uma ou outra arquitetura, desde que verdadeira.

[Rodrigo Faria, autor do artigo original desse forum de debates, é arquiteto, Ribeirão Preto SP]