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De: Rodrigo Azevedo
Data: Monday, April 08, 2002 7:36 PM
Assunto: Rodrigo Faria
Caro xará, até 20 anos
atrás, a cidade do Rio de Janeiro era um bom lugar para se morar, as pessoas
(no Brasil inteiro) gostavam de viver no Rio de Janeiro. Hoje, quem gosta
de viver no Rio de Janeiro? Daqui a 20 anos, quem irá gostar? O que será
do Rio de Janeiro daqui a 20 anos? O que será a Barra da Tijuca, a Zona
Sul e Norte, os subúrbios? A arquitetura para Lúcio Costa eram alguns
prédios e um milagre. Hoje, continuam os prédios, mas não há mais milagres.
O conceito de cidade tradicional tal qual conhecíamos, lugar de encontro,
trabalho e lazer acabará por completo. A palavra continuará, mas seu significado
mudará. Representará algo desconhecido, imprevisível, seguramente pior,
mais irracional e sem concessões comparado ao que temos hoje. Não há solução.
Não existe um novo modelo. Não existe mais espaço para novos planos e
projetos e novas formas de racionalizar o problema. A cidade tal como
está evidencia a falha da razão como norteadora de soluções. A razão criou
um novo modelo de cidade: a cidade-assassina. A que mata quem a concebe.
As palavras tornam-se óbvias demais frente a realidade que escolhemos.
A pergunta é: porque insistimos em nos matar? Porque insistimos em ser
esquizofrênicos? Porque escolhemos estar permanentemente doentes? Porque
abrimos mão da cidade? Nossa liberdade não vai até onde começa a do próximo?
Neste contexto, o arquiteto abriu mão de pensar e trabalhar a cidade.
Diz-se que não há mercado, não paga-se bem. Assume uma postura profissional
estéril, imatura, deixando vago o papel fundamental de articulador entre
os diferentes extratos sociais. Assim não há culpa nem soluções. A arquitetura
não opina nos jornais, na televisão, não participa de debates que possam
construir, com outras profissões que hoje atuam e pensam na requalificação
da cidade [ambientalistas, economistas, psicólogos, etc] uma nova forma
de encarar a cidade. A arquitetura está isolada. Não ha criação sem troca.
Não há crescimento sem troca. A cobra começa a engolir seu rabo. Certas
atitudes independem de macro mudanças estruturais. Não é preciso educar
todo o Brasil para se ter uma vida melhor. Não é preciso ter hospital
do SUS em todo Brasil para se ter uma vida melhor. Não é preciso que todos
os brasileiros tenham carteira assinada para se ter uma vida melhor. É
preciso sim, ver e incorporarar de que forma o Brasil de hoje, esgarçado
social e culturalmente, falido em suas cidades, sobrevive. Aí encontraremos
a peça fundamental para iniciarmos o processo de costura social: a cultura
popular, a expressão pura da sub-existência. Isto não está presente só
nos pobres e em suas atividades informais, mas na classe média e em suas
atividades informais e nos ricos e em suas atividades informais. O Brasil
é uma grande cidade informal. Informal nas relações sociais, econômicas
e políticas. Nossa grande diferença e máxima qualidade é ser informal.
Como todo comportamento, é passivel de atitudes certas e erradas. Mas
é a base de nossa cultura e insistimos em considerá-la produto da esquizofrenia.
Como as cidades. A cidade materializa em seus espaços e construções nossos
pensamentos e atitudes. Sendo produto de nossa cultura há de ser tratada
e considerada como bem cultural contemporâneo, passível e incentivada
a ser transformada. Nossos avós pensam diferentes de nossos pais, que
pensam diferentes de nós, que pensamos diferentes de nossos filhos e assim
por diante. Porque a cidade se afunda em um único pensamento? A lógica
simples e burra está aí: manter a cidade tal qual, isolada e intocada,
afastada da sociedade e de sua produção cultural. Mas isto é fruto de
uma sensibilidade limitada, medrosa. Medo de olhar no espelho e dizer:
Eu pude escolher. Acredito que a estratégia de combate não é pelo caminho
que o senhor coloca a questão. Não é através do embate direto com o sistemão.
É desta forma que o sistema espera nossa reação. Precisamos ser mais espertos.
Talvez devessemos aprender um pouco como os ambientalistas se tornaram
esta potencia no mundo em tão pouco tempo. Mas claro, existem outros aprendizados.
Também estou, aqui no rio de janeiro, junto com outros arquitetos, buscando
uma nova forma de abordar este antigo problema. Abraços.
[Rodrigo Azevedo, arquiteto,
Rio de Janeiro RJ]
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