De: José Carlos F. Bezzon
Data: Saturday, April 13, 2002 11:33 PM
Assunto:Minha Cidade - Ribeirão Preto Planejamento Estratégico, Niemeyer, Ribeirão Preto, e o PT

Caro Rodrigo, como arquitetos e urbanistas preocupados com os destinos de nossa cidade, traçados pelo poder vigente local, gostaria de expor algumas considerações no intuito de contribuir para este debate extremamente importante. Vejo que este modelo de planejamento tramita da direita para a esquerda e pelo centro, se é que podemos ainda falar em partidos e posições políticas de esquerda e direita, pois tenho a impressão de que tudo se resume em "centro neo socialista liberal" (acho que não vão gostar da denominação). Entendo seu desabafo com relação a contratação do Oscar Niemeyer e sua indignação, e como já conversamos não é só uma mera questão de "nicho de mercado" ou que somos arquitetos emciumados como pensa o poder local, mas acredito que um concurso não atrairia os grandes nomes da arquitetura, principalmente o Niemeyer. Talvez o procedimento através de convites a arquitetos nacionalmente e internacionalmente reconhecidos, brasileiros ou não, seria mais pertinente, alcançando uma projeção até internacional, o que com certeza colocaria nossa cidade na "pauta do dia", como quer o poder local. Juridicamente o procedimento da prefeitura não parece correto, e consta que providencias já foram tomadas. Mas sem duvida que democrático mesmo seria um concurso nacional ou internacional. Porem independente de ser Niemeyer, Siza, Mendes da Rocha, Tschumi, ou outra grife qualquer, vejo como questão de extrema importância a discussão espacial do planejamento da cidade, principalmente na implantação destes equipamentos no tecido urbano. Fica-nos muito claro que desde a primeira gestão Palocci (1993-1996) a cidade mudou, há sem duvida um momento de cisão do ponto de vista da gestão urbana, no modo de gerir a cidade. É realmente um marco. As legislações criados neste período, como o plano diretor de 1995, que apresenta instrumentos urbanos alinhados com o Estatuto da Cidade (embora não colocados em pratica pois ainda não foram aprovadas as leis complementares), assim como o projeto Ribeirão Preto 2001 - Ações Estratégicas para o Desenvolvimento, são documentos que foram construídos de forma democrática, com grande cunho social. Porem do ponto de vista espacial, fortalecem e fomentam a exclusão social e territorial na cidade. Alguns avanços foram conseguidos, constam destes documentos uma efetiva preocupação ambiental, a abertura para a participação social, diretrizes para o desenvolvimento econômico da cidade, entre outras questões que visam estruturar o crescimento e a melhoria da qualidade de vida em nossa cidade. Mas pouco se fez e se realizou, do que se elaborou e determinou na primeira gestão, para o que está sendo agora realizado nesta segunda gestão. Esta segunda administração mostra que dentro da premissa de se trabalhar em parceria com a iniciativa privada, questão fundamental para o sucesso desta gestão em continuidade , mostra o quanto o capital imobiliário dentro desta política de parcerias determina estas ações , principalmente quando temos um "gerente" economista e uma equipe subjugada, que quando muito conseguem realizar uma politica urbana "Robin Hood", onde o excedente conseguido pelos investimentos na zona sul "garantem " investimentos em infraestrutura na zona norte. Vejo que estas ações estratégicas, são interessantes quando pensadas para o conjunto da sociedade, e não para benesses particularizadas de uma cidade fragmentada e dividida entre espaços para ricos, vide zona sul, e espaços para pobres, vide zona norte com a grande massa de conjuntos habitacionais que foram construídos nas últimas décadas. A questão que vejo maior, portanto, é quanto a localização destes equipamentos que estão cada vez mais concentrados na zona sul. O centro de convenções era para ser construído originalmente na região nordeste da cidade, e de repente se desloca para o setor sul, já amplamente abastecido a partir do centro da cidade. Como você mesmo diz "os engravatados irão se deslocar pelo anel viário". Mas porque não podem circular pela zona norte? Cabe ao planejamento urbano seja estratégico ou não, democratizar o espaço da cidade, descentralizando a zona sul. Mostrar ao mercado imobiliário que devemos desenvolver e gerar oportunidades em outras regiões da cidade. Como por exemplo, outra obra que está sendo lançada e será realizada na cidade que é o Centro Administrativo, de extrema importância para o município e será construído na zona nordeste. Quem é o arquiteto deste projeto? Porque não contrataram o Niemeyer também para criá-lo? Com certeza para o poder local a zona nordeste não merece uma obra de um grande mestre.

[José Carlos F. Bezzon, arquiteto e urbanista, professor da Universidade de Uberaba – Uberaba MG]