De: Assunta Viola
Data: Sunday, April 28, 2002 9:37 PM
Assunto: Contratação / Carta aberta ao IAB-SP

AO INSTITUTO DOS ARQUITETOS DO BRASIL - SP A/C ARQ. GILBERTO BELLEZA, PRESIDENTE
Prezado arquiteto, Desculpe-me se tomo a iniciativa de escrever-lhe pessoalmente, mas tenho acompanhado alguns processos de concursos e alguns fatos de contratação de arquitetos que vem ocorrendo no país. Gostaria de fazer uma sugestão, como sócia que sou do IAB-SP e como arquiteta que se esforça por levar adiante um trabalho muito pessoal. Como nossa profissão, independente de nossa vontade, tem um alcance demasiadamente amplo, creio que os concursos de arquitetura, talvez a forma mais democrática de exposição de idéias arquitetônicas, devesse ser revisto e discutido. No caso de conjuntos como o CEASA, Largo das Batatas e outros tantos que têm sido noticiados pela imprensa especializada, acredito que seria interessante se, para estes casos de grande complexidade, escritórios experientes e de notório conhecimento fossem convidados a fazer seus projetos. Acredito que esses escritórios deveriam ser convidados e seus trabalhos pagos. A título de exemplo: para o Largo das Batatas, convidar-se-iam 05 escritórios (Paulo Mendes, Joaquim Guedes, Gasperini, Oscar Niemeyer...) e esses escritórios deveriam receber, por parte dos organizadores dos concursos, uma soma em dinheiro para a participação. Talvez o prêmio pudesse ser eliminado e a premiação seria a contratação para o desenvolvimento desses projetos, e posterior execução. Nisso a prefeitura e suas secretarias deveriam se empenhar muito em formular um programa detalhado de necessidades e programa orçamentário para o projeto e obra. Acredito que a produção que seria feita por esses escritórios, construídos ou não seu projetos, seria de grande valia para o desenvolvimento do pensamento arquitetônico contemporâneo brasileiro, visto que não estamos mais na época das grandes contratações feitas uma vez pelo Estado. Isso, acredito, dignificaria o processo de projeto junto a opinião pública, inclusive, no meio profissional, estudantil e da cidade como um todo. As equipes seriam pagas para dar idéias. Como as prefeituras não possuem sempre os recursos, parcerias com a iniciativa privada poderiam ser formuladas e elas arcariam com as despesas do concurso. Acredito que esses profissionais brasileiros mereçam respeito pelo tanto que já contribuíram e pelo o que ainda podem contribuir. Por outro lado, os jovens profissionais teriam acessos a concursos de menor monta para que seus trabalhos pudessem ser expostos e discutidos, e um banco de dados, mantido pelo IAB, teria os curriculum atualizados de profissionais aptos para os diferentes projetos. Como já vem sendo feito, o IAB seria sempre consultado em caso de formulação de concursos. Peço perdão pelo quase atrevimento de fazer esta sugestão, pois minha experiência ainda é tão pouca, mas como tive a oportunidade de trabalhar em um escritório europeu que sobrevivia de concursos, ganhos ou não, lembro-me que a experiência me deixou uma sensação de movimentação intelectual muito grande, de interesse crescente pela cidade como objeto de projeto, e entristece-me que tantas oportunidades sejam quase perdidas de reavivamento do saber - fazer arquitetônico, símbolo, o senhor deve bem saber, dos mais belos da cultura brasileira. Atenciosamente, aproveitando os 80 anos do IAB, grandes saudações.

[Assunta Viola, arquiteta, São Paulo]