De: Abilio Guerra
Data: Monday, May 13, 2002 11:32 PM
Assunto: Palácio Monroe

Cara Ana Carmen, gostei bastante do seu texto e acho ele provocativo na medida certa. Eu, em tese, assino embaixo de sua matéria. Mas tenho alguns comentários mediadores. Lembro que Mário de Andrade (provavelmente ele, pois a matéria não é assinada, mas o estilo o denuncia), no editorial da revista Klaxon nº 1, dizia que o Campanário da praça de São Marco deveria ser preservado, mas ruiu; uma vez no chão, jamais deveria ter sido reerguido. A mesma operação "fake" aconteceria muito tempo depois, já mais para o final do século, com a reconstrução do Pavilhão da Alemanha em Barcelona, famoso projeto de Mies van der Rohe para uma expo do início do século e reconstruído por Sola-Morales segundo os planos originais. Bem, eu conheci os dois e juro que fiquei emocinadíssimo, mesmo sabendo que eram "falsos", como também me emocionei com o David mentiroso no centro histórico de Firenzi. Evidentemente o porte destas reconstruções não se compara ao objeto que você analisa. No meu modo de ver, a hipotética reconstrução do Palácio Monroe se assemelha com diversos projetos de reconstrução que foram levados a cabo na Alemanha durante a década de 80 e que eram feitas a partir de fotos do período anterior à Guerra. Serviria para apagar os vestígios da guerra, um sonho inconsequente de recuperar a inocência perdida de um país inteiro, regredir à época anterior aos horrores do holocausto e da tragédia da derrota. Portanto, são operações urbanísticas e arquitetônicas movidas pela nostalgia e pelo escapismo, não por qualquer qualidade intrínseca ao objeto. Como Freud dizia, nada esquecemos. No máximo, recalcamos, o que certamente retornará depois, de forma fantasmagórica. Nosso país, de uma infantilidade atroz na condução de quase todos os aspectos de sua existência coletiva, não pode perder tempo com estas besteiras, com estes factóides. Um abraço

[Abilio Guerra, editor de Vitruvius]