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De: Ana Carmen A
J Casco
Data: Tuesday, May 14, 2002 5:29 PM
Assunto: Palácio Monroe
Prezado Abilio, em
primeiro lugar queria manifestar minha grata surpresa pela forma como
o fórum de dabates se estabelece. A escrita, ou melhor, a expressão
do que pensamos é, em geral, um gesto repleto da solidão
do pensar na qual é produzido (mesmo que esta produção
seja consequência dos infinitos agenciamentos que fazemos com outros
pensamento e pensadores, movida por uma intensa correspondência
de amizades, nem sempre explícitas ou reveladas). O retorno desta
escrita, nem sempre medido pela recepção das opiniões
que o que escrevemos provoca, e insuspeito e frequentemente se aloja no
silêncio que o pós-parto dedica ao esforço de escrever
um texto (é como parir um filho, guardadas as proporções).
Pois bem, estou muito feliz com a resposta que meu texto provoca. No caso
de sua resposta queria comentar algumas coisas. A primeira delas diz respeito
ao fato de que a crítica à reconstrução do
Monroe não pode se extender de forma lisa, indiscriminada, a qualquer
reconstrução. Há gestos e gestos. Não estou,
nem pretendo, discutir qualquer gesto de reconstrução, as
diferentes intenções que levam à reconstruções
em lugares e tempos diferentes, em situações sociais tão
díspares... a talentos que são capazes de gerar emoções
tão distintas porque oriundos de verdadeiras manifestações
estéticas ou artísticas! Walter Benjamin, por exemplo, e
toda a sua discussão a respeito da obra de arte na era da reprodutibilidade
técnica, coloca questões no mínimo pertinentes e
desviantes de um pensamento que busca a hegemonia de uma verdade una.
Não é o meu caso. Aceito a emoção diante do
falso como no último filme de David Lynch, Cidade dos Sonhos,
naquela cena em que a cantora da Boite El silencio morre cantando
Crying, mas a música continua a soar, como se ela ainda
estivesse cantando. Mas a emoção de ouvir a música,
se transpõe para a gravação, como se esta substituisse
a interpretação da cantora de cabaré. Não
sei se me faço entender. Veja o filme (se ainda não viu)
e veja o que acha da correlação que faço. A voz gravada,
emociona. O que me parece importante discutir ou revelar é a ética
que move a reconstrução. Este gesto invisível no
qual todo o sentido de reconstruir se encontra guardado e pelo qual deve
ser revelado. Este pacto que cada um faz consigo mesmo e com a sociedade
na qual vive, a qual representa, através da qual deixa seu registro
no mundo, na história da humanidade. Podemos reconstruir. Podemos
(e devemos) demolir, apagar, esquecer. Importa é que os sentidos
que movem estes gestos, na medida em que são conhecidos, seja revelados
em sua potência de gerar outras reações, inscrever
novos siginificados em texturas urbanas, museais, artísticas, sociais,
capazes de se modificarem a partir daí. Que estes gestos, sempre
muito potentes, revelem o que vem antes e depois deles mesmos. Seu passado,
presente e quem sabe futuro! Não gostaria que meu texto soasse
como uma desqualificação do tipo de experiência que
sua intervenção revela, pelo contrário.
[Ana
Carmen A J Casco é autora do artigo original deste fórum
de debates]
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