De: Ana Carmen A J Casco
Data: Tuesday, May 14, 2002 6:11 PM
Assunto: Palácio Monroe

Prezado Mário Yoshinaga, em primeiro lugar muito obrigado por suas observações e leitura atenta do que escrevi. Depois considere o seguinte: não deve se desculpar por "não ser da área". O assunto cidade deve ser de qualquer cidadão, dos mais preparados para lidar profissionalmente, ate os "menos" preparados. Na minha visão, cidade é assunto de quem vive na cidade. Experimenta suas pulsões. Sofre as conseqüência do que acontece nela ou do que não acontece. Enfim, cidade é assunto de cidadão! Assim acho suas observações oportunas. Sobre o Minhocão, de fato, me falta conhecimento para discutir seu ponto de vista, que respeito. No meu artigo o que tentei enfatizar foi o seguinte: há por detrás de qualquer intervenção, seja ela de construir, reconstruir, demolir, valorizar ou apagar o passado, uma intenção, um sentido. Para imprimir um sentido é preciso antes pactuar, elaborar, princípios éticos (e mesmo estéticos) que irão depois nortear as atitudes, os gestos concretos. É deste antes que falo. É neste antes que quero operar. É no plano da justificativa de nossas idéias e do quanto podemos submeter nossas cidades a elas, que quero discutir. Assim reconstruir é incorreto (do meu ponto de vista, é claro!). Por que o passado permanece inalcansável uma vez transcorrido o tempo (somos apenação do passado é revestida do gesto da vaidade, tanto pior! Imaginemos que não seja isso. O passado não volta. Com isso sei que você concordou. A outra questao é a de deixar o vazio do erro como denuncia do irreparável. Coisa que não se coloca no caso do Minhocão, que segundo você deveria ser demolido. Tudo bem. Fiquei apenas pensando que a sua solução para o problema requer um exercício quase surreal de construir um túnel aéreo à prova de feiura visual. É este "à prova de feiura visual" que coloca um desafio quase intransponível na minha opinião. Há algum tempo li um texto que dizia mais ou menos o seguinte: "sociedades sem ética são sociedades sem estética". Isso me parece extremamente acertado. Se nossas soluções urbanas (ou arquitetônicas) são ruins, feias, descoladas dos contextos, agressivas, alguma explicação deve haver. Uma delas é seguramente a questão da ausência de uma ética capaz de construir os espaços públicos e privados de nossa existência. Espero que esta resposta anime suas reflexões.

[Ana Carmen A J Casco é autora do artigo original deste fórum de debates]