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De: Ana Carmen A
J Casco
Data: Monday, May 20, 2002 11:00 AM
Assunto: Palácio Monroe
Prezada Vera Hazan, como você também ando alarmada com o que vem acontecendo
e sendo divulgado pela imprensa em termos da associação entre arquitetos
e urbanistas com a atual gestão municipal, no Rio de Janeiro! Vale a denúncia
e o protesto, mas sobretudo a reflexão que fazemos ou podemos fazer diariamente
sobre a cidade na qual vivemos. Sobre a questão "semita", foi de propósito,
mas não no sentido de generalizar, e sim no de estranhar profundamente
uma guerra, ou melhor, esta guerra, entre povos que tiveram a mesma origem.
Estranhamente não me coloco contra os muçulmanos (outra generalização,
não é mesmo?), nem contra judeus... Mas este seria um outro debate sobre
o qual poderia apenas argumentar com sentimentos e afetos e não como uma
especialista na análise do tema. Por isso talvez seja melhor calar. Há
questões, entretanto, levantadas por você que gostaria de comentar. Além
de professora na UFF sou, desde 1983, funcionária do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional onde por diversos momentos estive presente
em debates sobre o que tombar, por que tombar, o que fazer diante das
constantes ameaças sobre o patrimônio cultural edificado de uma cidade,
sem contar as ameaças permanentes ao patrimônio imaterial (feito dos hábitos
e dos afetos, dos modos de viver e produzir etc) das inúmeras comunidades
espalhadas pelas cidades e pelo interior brasileiro! É um tema que merece
reflexão porque feito de tantos lados que nenhum poliedro seria capaz
de representar... Talvez o olho da mosca, não sei. Tenho trabalhado com
a restauração de casario sem expressão monumental da arquitetura eclética
que reveste partes antigas e degradadas do Rio, na Lapa, Praça Tiradentes,
Praça da Cruz Vermelha e arredores. É uma arquitetura considerada "pastiche"
por muitos teóricos e arquitetos importantes como Lucio Costa. Por isso
mesmo e por outros motivos que me escapam foi sempre considerado ser possível
abrir mão desta arquitetura, não preservá-la, abandoná-la ao destino inexorável
do desaparecimento (ao qual estamos todos, diga-se de passagem, destinados.
As construções de pedra, evidentemente, demorando mais tempo para viver
este desígnio). Mas vejamos. Interesso-me pelo que foi, num determinado
momento, desprezado enquanto valor e tenho colhido bons frutos. Neste
universo discutimos as idéias de original, único, monumental, excepcional...
Questões que estão sempre envolvidas nesta discussão, pelo menos do ponto
de vista do Iphan. Trabalho com a idéia de que a vida é uma obra de arte
em sua construção permanente e cotidiana disso não podendo escapar a arquitetura
e as cidades que não existiriam não fosse o destino de abrigar esta obra
de arte que é a vida. E que a vida, para ser preservada, precisa também
do esquecimento. Pois bem: algumas perguntas feitas por você posso responder,
mesmo que de forma aparentemente paradoxal. Devemos revitalizar sim sem
fazermos pastiches! Mas, se não formos capazes disso, devemos ser capazes
de refletir sobre isso, indagar que outros motivos comparecem nestas soluções
e aceita-los ou critica-los com vigor. Não devemos engessar áreas da cidade!
Mas devemos preservar aquilo que identificamos como importante, custe
o que custar. É um trabalho de sensibilidade e não de decisões políticas
globais, midiáticas. É um trabalho de colocar o ego em segundo plano e
deixar falar a visão maior que somos capazes de ter do mundo quando não
o vemos apenas com a lente de nossa individualidade. Saber misturar nosso
eu individual e coletivo na construção de espaços públicos melhores. Poderia
falar muito mais. Mas deixo aqui meus agradecimentos sinceros aos seus
comentários, esperando encontrá-la em outros debates. Um abraço
[Ana
Carmen A J Casco é autora do artigo original deste fórum
de debates]
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