De: Cecília Rodrigues dos Santos
Data: Thursday, May 23, 2002 5:50 PM
Assunto: Porque existem pavilhões e pavilhões

Caro Abílio, antes de mais nada parabéns pela cobertura do seminário em homenagem ao centenário de Lucio Costa, com acompanhamento diário das comunicações e dos debates, que descobri agora, na volta. Não existe melhor maneira de ampliar as discussões e despertar interesse pelas questões mais importantes de nossa cultura. E sem dúvida Dr. Lucio é uma delas, como ficou confirmado no Rio de Janeiro nesses cinco dias. Na organização final do seminário acabei, eu uma paulista da gema, numa mesa entitulada "Lucio Costa e o Rio de Janeiro", e entre dois ilustres estudiosos da cidade, meus amigos Margareth Pereira e José Pessoa. Fui assim obrigada a procurar um bom gancho carioca para colocar as questões que me preocupam. E o gancho, por coincidência, foi a intenção da prefeitura do Rio de reconstruir o Pavilhão Monroe, o que remete ao debate desencadeado pelo texto da Ana Carmen, muito oportuno. Não cabe aqui reproduzir o trabalho apresentado, mas levantar alguns de seus pontos como contribuição ao debate, e principalmente como provocação. O que me levou a escolher este problema para tratar não foi a discussão da proposta em si, tão ao gosto da nossa época supermoderna que se apraz em construir simulacros da história para compor os grandes parques temáticos de sociedades esquecidas de sua história, de indivíduos esquecidos de si mesmos. Ana Carmen, e você também, foram muito felizes nas colocações. O projeto do prefeito do Rio de Janeiro me interessou pelo fato da responsabilidade, ou "culpa", pelo desaparecimento desse monumento do ecletismo ter sido imputada historicamente ao arquiteto Lucio Costa, pelo que pode parecer, na época a voz dissonante em um coro de apoio ao monumento. Lucio Costa, instruindo parecer do IPHAN sobre o tombamento de um conjunto de edifícios na Avenida Rio Branco, movimento de resistência ao seu extermínio, faz questão de excluir o Pavilhão do conjunto: "Pereira Passos com sua desenvoltura demolidora teria sido o primeiro a tirar dali o aviltado Pavilhão Monroe, cuja presença estorvante já não se justifica. O desafogo da área se impõe" . Assim decidi voltar a olhar para o passado eleito pelo arquiteto mas desta vez através do passado com o qual ele precisou romper. Identificar que monumentos Lucio Costa precisou negar para melhor definir uma modernidade ao mesmo tempo tradicional e modernista, obrigou-me a ir além do árduo inventário dos objetos eleitos por ele como legítimos depositários da memória nacional, para me fixar naqueles objetos que precisou apagar. Tentando entender e explicar porque não se poderia esperar que Lucio Costa aceitasse a "mentira do ecletismo", esse "hiato da História da Arte", como ele o definiu: o ecletismo representou o limite da modernidade de Lucio Costa. Afinal tudo não é igual a tudo no âmbito da preservação (e não só dela...), pelo menos para quem se preocupa em refletir e definir critérios de atuação, e a pagar o preço. No final do texto concluí que o Pavilhão Monroe não deveria ser reconstruído. Quando Marc Augé discorre sobre a necessidade de esquecer para melhor lembrar, argumenta que é preciso esquecer para permanecer presente, esquecer para não morrer, esquecer para permanecer fiel. Portanto argumentei a favor de que o local "desafogado" pelo Pavilhão Monroe permaneça vazio, e seja preservado como "o lugar do esquecimento de Lucio Costa". E se for o caso de reconstruir um Pavilhão, em qualquer outro local, bem entendido - à revelia de Dr. Lucio se ele pudesse opinar, mas com o apoio da polemica suscitada pela reconstrução de obras modernas contemporâneas como o Pavilhão de Mies van der Rohe, dos debates sobre autenticidade e, quem sabe, com a autorização do co-autor Oscar Niemeyer - proporia que se reconstruísse o Pavilhão da Feira de 1939 em Nova Iorque, que poderia ser eleito "o lugar da memória de Lucio Costa". Dupla homenagem ao pensamento e ao trabalho do arquiteto inscritas no tecido da cidade do Rio de Janeiro, que teve em Lucio Costa um dos grandes construtores de sua paisagem, como ficou claro no final do seminário. Além do mais Abílio, com certeza seria uma emoção arquitetônica muito maior para nós todos poder adentrar o outro Pavilhão, o moderno!!!!!! Abraços

[Cecília Rodrigues dos Santos é arquiteta, crítica de arquitetura e co-autora de "Le Corbusier e o Brasil"]