De: Ana Carmen A J Casco
Data: Friday, June 07, 2002 6:27 PM
Assunto: Porque existem pavilhoes e pavilhoes...

Prezada Cecilia, fiquei contente de estar tão bem acompanhada em minha discussão sobre a recosntrução do Monroe. Infelizmente não pude assistir ao seminário sobre Lucio Costa e fiquei muito chateada de ter perdido a mesa em que você esteve presente. A idéia (genial) do espaço vazio como sendo o lugar do esquecimento do planejador, do técnico do patrimônio que autoriza a demolição, do homem que pensa a cidade em sua lógica urbana (e humana) integrando estética e ética, passado e futuro, preservação e renovação. O esquecimento de doutor Lucio. Muito bom. Quando nada para preservar a saúde da própria memória. Os paradoxos de que são feitos os gestos mais corajosos e nem sempre construídos com pura certeza ou confiança. Mas acho que doutor Lucio tinha poucas dúvidas. Pensava muito e afirmava sempre com muita convicção o que dizia. Maria Elisa me dizia que ele sempre fornecia o Norte, nas situações mais simples ou mais difíceis. Mas não sou especialista em Lucio Costa e teria muita dificuldade de aprofundar meus parcos comentários, mediados pela inevitável paixão (acrítica na maioria das vezes ou como a maioria das paixões) pelo arquiteto e urbanista Lucio Costa, que de alguma forma envolveu parte minha geração que veio trabalhar no Iphan. Os lugares do esquecimento me levam para o seu oposto: os lugares da memória e isso e capaz de gerar conteúdo para um outro texto, uma tese de doutorado, quem sabe. Como técnicos do patrimônio (e agora como professora de Restauro) estamos sempre lidando com os limites e paradoxos destas situações. Não para contemporizá-las mas para radicalizá-las na exposições de pontos de vistas que ajudem a provocar o pensamento. Fazer o outro pensar. Se deixar envolver pelo desafio do pensamento do outro, como repentistas numa roda de música. Me deixei capturar pelo fio do seu raciocínio e pensei na reconstrução do Pavilhão da exposição americana. Ainda assim e apesar dos bons argumentos que você apresenta, fiquei na dúvida sobre se concordava ou não com a hipótese de sua reconstrução no Rio. Aí me lembrei de uma outra discussão. Aquela empreendida por ocasião da restauração da casa modernista em São Paulo. E fiquei pensando no aspecto experimental da arquitetura modernista. Fosse no emprego de materiais novos, fosse na exploração de formas apuradas e "limpas". Me lembrei das críticas quanto ao mau envelhecimento desta arquitetura (que não tem pingadeiras!). Pensei no desafio que é preservar esta arquitetura tão descaracterizada pela forma de usar de homens que não experimentaram a revolução de se tornarem modernos em seus hábitos, de não se adequarem a padrões, de estranharem o modernismo e resistirem, em alguns casos, bravamente, à sua dócil imposição de um modelo (modernista). Trabalho no Palácio Gustavo Capanema e me sinto uma verdadeira privilegiada. Adoro o prédio. Me enquadro perfeitamente em sua tipologia, em seu modo de ordenar o espaço, em sua exigência de circunspecção no uso dos espaços abertos! Mas vejo contrastes enormes quando olhando sua fachada de vidro me deparo com armários e arquivos encostados nas janelas! Orientei um trabalho de restuaração do Pedregulho de Reidy e junto com minha aluna nos encantamos ao encontrarmos um dos únicos apartamentos preservados em sua originalidade! Esquadrinhamos as transformações e fomos capazes de compreende-las. Percebemos que talvez, depois de muitos anos e convívio, pudessemos recuperar junto aos moradores esta discussão de como o apartamento deveria funcionar em sua forma original e convencer alguns a recuperá-los... Mas nos convencemos também de que algumas mudanças, como o uso dos corredores como "quintal de fundos" eram super interessantes e necessárias e refletiam uma cultura que o modernismo não foi capaz de perceber. Perdoe o tamanho da resposta mas é que um assunto vai puxando o outro e são tantos que poderíamos iniciar uma longa conversa. Queria te dizer que acho que eu não reconstruiria o Pavilhão modernista. Acho que precisamos, e muito, discutir a preservação de nossa arquitetura modernista. Identificando-a nao apenas a partir de seus arquitetos maisexpoentes, ou de suas obras mais monumentais. A reconstrução de um prédio modernista seria uma deliciosa discussão sobre tudo isso!

[Ana Carmen A J Casco é autora do artigo original deste fórum de debates]