De: Cecília Rodrigues dos Santos
Data: Monday, June 10, 2002 9:59 AM
Assunto: Resposta para Ana Carmem

Cara Ana Carmem, é mesmo um privilégio para nós todos contarmos com este espaço de debate e troca. Olha que genial a gente poder se encontrar domingo a noite no Vitruvius para falar de Dr. Lucio e dos seus lugares ! Realmente conservar, restaurar e agora reconstruir são problemas que assumem uma conotação muito própria e particular quando o assunto é arquitetura moderna. Está aí o DOCOMOMO se reunindo e discutindo já há alguns anos e as questões só aumentaram, relativizando inclusive alguns dos "dogmas patrimoniais". Minha provocação – a reconstrução do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova Iorque de 1939 –, no contexto da discussão sobre "o direito de esquecer" (créditos a M. Augé e P. Norra), gerou uma estimulante troca de e-mails. As reações foram as mais diversas e controversas. Soube até pelo Abilio que além do pavilhão do Mies van der Rohe em Barcelona foi reconstruído o do Esprit Nouveau de Le Corbusier em Bolonha, na Itália. Já temos portanto dois antecedentes, ambos modernos, dos mais significativos. Além das dificuldades de morar, de usar "modernamente" esses espaços, como bem lembrou você, um morar que deve ser tão sofisticado que acaba sendo raro como colocou a Sophia Telles no Seminário, capaz quase de inviabilizar o projeto na sua essência e integridade, a reconstrução recoloca a questão, entre outras, da autenticidade além de problemas que nos aproximam de discussões que ocorrem hoje no campo da genética. Sempre poderíamos nos perguntar: detalhados até a minúcia, pensados em meio ao elogio da reprodutibilidade, estes projetos, além de tornar tecnicamente possível a reconstrução, não trariam embutida a possibilidade, e até mesmo a intenção, dessa reconstrução? Aquilo que poderia ir contra os princípios básicos do movimento moderno não seria a preservação, e no limite o tombamento da sua arquitetura? Dr. Lucio defendeu o caráter efêmero dos Pavilhões. Defendeu também o tombamento da Igreja da Pampulha, entre outros monumentos modernos. Não estou defendendo nenhuma tese, mas criando problemas, tentando levar mais longe a provocação como você muito bem observou. A reconstrução do outro Pavilhão, o moderno, poderia ser um projeto experimental, que permitisse testar novas tecnologias e nos presentear a todos com essa experiência espacial insubstituível. A oportunidade de conversar sobre ele com seu co-autor Oscar Niemeyer. Poderia até ser demolido em seguida. E porque não re-reconstruído, desta vez em Budapeste ou em Seul, assim como se quer para o pobre Monroe que não consegue descansar caminhando para a sua terceira edição em dois países. Afinal, segundo os antropólogos do presente, não somos mais cidadãos modernos, nem mesmo pós-modernos. Somos sobre-modernos, com tudo o que isto possa trazer de perdas e ganhos no tempo e no espaço, longe ainda de serem contabilizados mas que devem ser obrigatoriamente refletidos nesse contexto. Concordo com você que o importante é continuar identificando, estudando, discutindo a preservação, denunciando, participando do DOCOMOMO, do Vitruvius, da Universidade, e de outros lugares efetivos de debate sobre a arquitetura moderna. Mas as vezes fico pensando que precisamos de fatos que nos surpreendam, que provoquem dúvidas, que nos mobilizem em torno dos mesmos novos/velhos problemas. Você ter se demorado escrevendo sobre a idéia desmiolada, entre tantas, de reconstruir o Monroe, foi um bom começo. Uma atitude. Para nós resta o desafio de manter vivo o debate. Que pode até chegar, quem sabe, a uma certa concretude às avessas... PS importantíssimo: ganhei esta semana o nº 30 da Revista do Patrimônio dedicada a Mario de Andrade, organizado pela Marta Rossetti e coordenado por você. Obrigada por esse presente ! Ainda traz uma das melhores fotos do Mario para mim, aquela com seu famoso pijama de seda listado! Depois de folheá-la e ler alguns dos excelentes artigos só pude concluir nostalgicamente, olhando para a caricatura debochada de Mario de Andrade que abre a revista na capa e para o fac-símile do seu anteprojeto para o Sphan que fecha a revista: se Mário deu a luz, só poderia ser ele a encerrar .... Sorte a nossa, que temos do que lembrar com saudade....

[Cecília Rodrigues dos Santos é arquiteta, crítica de arquitetura e co-autora de "Le Corbusier e o Brasil"]