De: Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Data: Friday, May 31, 2002 12:16 AM
Assunto: Resposta à questão do André Huyer

Prezado André Huyer: essa discussão sobre a realização de audiências públicas relacionadas a projetos de arquitetura tem alguns importantes precedentes, o mais proeminente deles certamente é o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257, de julho de 2001), que traz vários princípios que reforçam esse tipo de esclarecedor debate. Essa questão da acessibilidade, com certeza, deve ser colocada em nossas pautas de discussão da profissão, mas não como MAIS um formalismo, uma manifestação superficial de "correção política", algo que dá e passa. Ao contrário, há algo profundamente transformador de nossa profissão, por esse caminho. Aqui em Brasília temos um poder público próximo e distante, ao mesmo tempo (...), e, eventualmente, temos a oportunidade de discutir questões de interesse político para a nossa profissão e para as comunidades a que servimos profissionalmente. Eu tive a oportunidade de discutir (e aprender) muito sobre o propósito desse procedimento das audiências com o colega arquiteto (e professor da UFMG), Marcelo Guimarães, valoroso "cadeirante" e especialista no tema, por ocasião de um debate promovido pela CORDE nacional em 2001, sobre a regulamentação de algumas leis federais recentes, de interesse das pessoas portadoras de deficiência (e das muitas instituições e profissões envolvidas na promoção da acessibilidade e da inclusão das populações especiais que somos). Sinceramente, espero que essa ordem de debate público, de nossas arquiteturas públicas, se torne algo de nosso mais vivo interesse - o que é mais importante do que se tornar algo meramente "obrigatório". Quanto aos nossos clientes, esse é um debate interessante, pois acredito que nós temos um compromisso com a formação da opinião pública que temos descurado. De um modo muito amplo, a questão da acessibilidade coloca para nós um enorme conjunto de questões que, acredito e lamento, relegamos há um bom tempo, sobre os critérios de projeto e nossos valores profissionais. A questão de fundo que envolve esses critérios não é somente aquela que uma certa ideologia de justiça social combativamente sugere (e que endosso), mas é um desafio para a formação do arquiteto: o "usuário" é um enigma que nos recusamos a decifrar. Em uma sociedade que vem se educando, que vem lutando por seus direitos, a indecisão quanto a entender e a participar das mudanças sociais vai produzindo a perda de qualidade de nossa produção profissional. A "qualidade" da arquitetura é feita de que "material" ? Obrigado pelas observações.

[Frederico Flósculo Pinheiro Barreto é autor do artigo original desse debate]