De: Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Data: Sunday, June 02, 2002 9:28 PM
Assunto: Resposta à Assunta Viola

Prezada Assunta Viola: Realmente, uma profissão pode ser algo extraordinariamente intrincado, qualquer uma delas. Talvez o arquiteto seja um dos últimos românticos acerca de sua própria profissão, tão... inocentes, quase ingênuas, são as nossas declarações acerca do que fazemos. Vers une Architecture, por exemplo e em especial, é uma das obras primas da literatura ocidental, e lá a arquitetura é o "magistral jogo das formas sob a luz", etc. Num sentido muito próprio, esse feixe de declarações de Le Corbusier ainda é um dos guias teóricos mais prestigiados em nossa profissão. Até hoje. Isso deveria nos levar a refletir sobre o sentido da expressão "teoria da arquitetura", nesse caso de amor por declarações tão puras e singelas. Somos um tipo de intelectuais que realmente (ainda) nos sentimos MUITO estimulados por palavras-de-ordem que nos digam a direção, o sentido, a magnitude de nossa tarefa. Junto aos estudantes, sinto a alegria desse impulso, dessa joie-de-vivre, que a maioria de nós gostaria de sentir para sempre... Mas como professor tenho aprendido a preocupar-me com o "dia seguinte": o que realmente acontece no mundo real (onde a arquitetura não somente é algo que se expõe ao sol, mas que é produzida através de recursos muito concretos e quase sempre escassos, atendendo a interesses e necessidades desiguais, exigindo, além disso, que se alcance essa qualidade estética tão difícil de definir e tão imediata de identificar....), além do nosso mundinho fechado ? Há um monte de coisas chatas no mundo real. Uma delas é esse negócio de "legislação". Para que isso, Meu Deus ?! Eu me lembro de uma sessão de discussões que tivemos aqui em Brasília, na sede do IAB-DF, acho que em 1997, sobre as propostas de reforma do Código de Edificações do Distrito Federal, e estava em pauta a discussão do "pé-direito mínimo". Discussão vai, discussão vem, e constata-se que não havia um estudo sequer (sistemático, científico, digamos) que avaliasse o "resultado da aplicação do pé-direito anterior" (2,40 m de um modo geral) sobre a qualidade de vida das pessoas, como resposta aos programas de necessidades, às questões de conforto, etc. Isso - e o detalhismo a que as discussões iam chegando - aborreceu tanto a um dos experientes profissionais presentes que ele, pedindo solenemente a palavra, começou um eloqüente discurso sobre a "desnecessidade" de Códigos de Edificações, de todo o gênero. Do ponto de vista por ele apresentado, a própria existência de um Código de Edificações significava uma forma de "falta de confiança" no trabalho dos arquitetos."Eu sei o que faço, e o que faço, o faço muito bem". Aplausos. Claro, se somente existissem pessoas tão razoáveis quanto ele, o mundo seria "a sua cara". Uma maravilha, um espanto. Mas cada peça de legislação representa tanta civilização quanto a que nós produzimos na forma de arquitetura, medicina, engenharia, etc, mesmo nos casos mais ordinários. É interessante que persista essa nossa particular dificuldade em entendermos como e por quê se produzem e mantêm esses protocolos de convívio e controle social. Como você colocou, o arquiteto é um dos "agentes" no jogo da política, não joga isolado, mas, na atualidade, parece subestimar sua capacidade de influenciar esse jogo. De um certo modo, a crítica colocada no artigo sobre as "Audiências Públicas para Projetos de Arquitetura ?" diz respeito ao jogo de inter-influência, entre arquitetos e seus clientes comunitários: fala-se uma forma de jogar que implica em aprendizado e em promoção para ambos os "lados". A tese, em resumo, é de que o futuro de nossa profissão depende de nossa capacidade de aprender com os nossos clientes - e vice-versa. O jogo dos volumes sob a luz deve ser enriquecido pelo jogo dos interesses em sociedade, que não é exatamente simples, nem pode ser resumido (e solvido) pelos programas de necessidades "que nos dão". Obrigado por seu comentário, Assunta.

[Frederico Flósculo Pinheiro Barreto é autor do artigo original desse debate]