De: Augusto Stiel Neto
Data: Wednesday, July 03, 2002 2:30 PM
Assunto: Carta aberta de Denise Xavier

Cara Arquiteta Denise Xavier, foi com prazer que li sua carta aberta na revista Vitruvius. Como não sou arquiteto, sinto-me aqui à vontade para parabenizá-la pela iniciativa e para introduzir algumas novas questões à movimentação que se ensaia a respeito do Concurso para a Reconversão Urbana do Largo da Batata. Sou artista plástico de formação e completarei meu quarto ano do curso de Ciências Sociais na USP. Mais que isso, sou paulistano, e como tal, devidamente interessado na paisagem em que vivo - a cidade de São Paulo. A arquitetura e o urbanismo detém a vantagem de lidarem com a realidade imediata em que vivemos na medida que trabalham diretamente com o habitat citadino. É na cidade que nossas vidas se desenrolam, para o bem ou para o mal, e nelas que experenciamos a vida. A iniciativa de concursos como este inflam a importância destas matérias pois permitem que o caos da construção e desconstrução permanente que caracteriza a evolução diária das cidades seja pensado de uma forma menos imediatista, ultrapassando as fronteiras do terreno e abrindo-se para questões mais articuladas com a dinâmica maior do espaço urbano em que vivemos. Sendo assim, quando soube da iniciativa do concurso, fiquei interessado em participar, como futuro sociólogo, num exercício muito interessante de possibilidades interpretativas, pois acredito ser imprescindível hoje ao urbanista a visão mais humana da cidade, para que se viabilize uma interação menos traumática entre o concreto e a carne. Lendo o edital, fiquei impressionado com a intenção maior do concurso: uma proposta visivelmente humana, que tomava cuidado com aspectos históricos e realidades sociais de toda uma região, de resto muito bem escrito, amplo e devidamente embasado. Identifiquei imediatamente uma possibilidade muito interessante de discussão da cidade, pois na área privilegiada do Largo da Batata um microcosmo riquíssimo poderia fornecer ingredientes para um verdadeiro banquete de soluções e propostas para toda a São Paulo. Mais que um concurso com vencedores e perdedores, a cidade ganhou uma possibilidade única de debate, onde a arquitetura chamaria para si a vanguarda de todo um movimento, de preferência multidisciplinar, que legaria grandes propostas que certamente poderiam fazer face ao movimento autônomo que o urbanismo tomou nas últimas décadas - como você bem destacou. Questões como a violência, a distribuição de renda, a inserção social e tantas outras caras às ciências humanas em geral deveriam obrigatoriamente fazer parte do estofo teórico das propostas apresentadas, pois imagino exercício fútil a arquitetura desconectada da realidade circundante - e a história sempre nos mostra a arquitetura intimamente ligada às artes como forma privilegiada de interpretação e viabilização concreta dos movimentos de vanguarda, que dinamizam o mundo e clarificam seus mecanismos. É sempre bom lembrar que uma cidade é feita de pessoas, que produzem sua história e sua dinâmica, e que merecem ser levadas em conta como seres dificilmente moldados ao bel-prazer por otimismos positivistas, estes já devidamente enterrados e hoje metamorfoseados em boas intenções fantasiosas cheias de arabescos orgânicos, espaços vazios e acessos controlados. Não foi por acaso então que menos da metade dos inscritos conseguiram entregar o trabalho e todos os que o fizeram sabem das imensas dificuldades encontradas. Não por acaso também, a forma como se conduziu a conclusão deste processo que foi este Concurso deixou muito a desejar. Primeiro pois, como você bem disse, não foi dada seqüência aos debates e reuniões que aproveitariam o rico sumo de idéias que todos os participantes trariam ainda quentes dos meses de trabalho sobre o tema. Segundo que, assim procedendo, os organizadores e gestores do Concurso afastaram-se das premissas apresentadas no edital esvaziando propostas interessantes e deixando de lado importantes aspectos da região afetada. Do Edital do Concurso e dos resultados apresentados, algumas questões permanecem: a região entre a Rua Butantã e a Avenida Eusébio Matoso continuará seu processo de degradação como vem acontecendo há décadas? O comércio histórico existente conseguirá permanecer à sombra dos mega-empreendimentos da Operação Faria Lima? O camelô poderá exercer seu direito de cidadão de trabalhar num país de economia mais que informal nesse ambiente? As praças, alamedas e calçadões serão ocupados? Por quem? A comunidade que ali vive e trabalha foi consultada ou sua voz foi alguma vez aludida por algum dos trabalhos apresentados? A região lindeira ao futuro Terminal Intermodal da Rua Capri, que certamente passará por profundas e importantes transformações, foi abordada por algum dos trabalhos apresentados? Estas e outras muitas questões são pertinentes a um debate que o governo municipal suscitou através deste concurso, cujo resultado se esvazia no silêncio da cidade, de seus administradores e dos profissionais a ela ligados. As pessoas que pensam a cidade têm o direito de serem ouvidos, principalmente dada a magnitude de tal projeto, do montante do dinheiro público envolvido e da real possibilidade que uma nova forma de organização urbana e social transpire de tal movimento, possibilidade esta que o país tanto precisa. A arquitetura e o urbanismo não podem se furtar à responsabilidade que carregam enquanto matérias intimamente ligadas à sociedade e seus caminhos, nem tomarem para si a confortável posição de juízes insatisfeitos e críticos costumazes sempre a degladiarem seus egos em coliseus completamente vazios. Um debate público tem portanto, aqui, meu incondicional apoio, mesmo sem jurados ou premiados, pois os primeiros poderiam participar como debatedores, enriquecendo a discussão, e os premiados seriam todos os paulistanos que ganhariam um horizonte mais promissor dentro da selva de pedra, arame e concreto na qual a cidade acabou, infelizmente, por se transformar. Conclamo então todos os profissionais que pensem a cidade para a fomentação de tal arena, aproveitando o governo "com promessas mais democratizantes" que São Paulo elegeu para um determinado fim, maior que simplesmente a sanitarização moral de seus quadros administrativos. São Paulo não pode se dar ao luxo de perder essa oportunidade de se enxergar profundamente e, consequentemente, deixar de se fascinar pelo seu reflexo nos brilhantes vidros espelhados de uma realidade muito além de suas reais e ideais fronteiras. P.S.: "Tragédia. Eu não acredito que alguém, algum dia, será capaz de fazer os administradores de uma cidade entenderem que, de um ponto de vista urbanístico, as partes mais atraentes de uma cidade são precisamente aquelas onde nunca se fez nada. Eu acredito que a cidade, por definição, quer que algo seja feito nessas áreas. Essa é a tragédia." Rem Koolhas

[Augusto Stiel Neto é artista plástico e estudante de Ciências Sociais, São Paulo SP]