De: Sylvio de Podestá
Data: Tuesday, September 17, 2002 4:49 PM
Assunto: Brasilia

Caro Paviani, morador na década de 60 de Anápolis, ao lado da da extinta rede ferroviária, vi por ali chegar quase todo o material para a construção de Brasília - perfis metálicos, vergalhões, cimento, etc. - provavelmente de SP e Rio. Por outro lado, no aeroporto da cidade, desciam os DC3 e os Constelations com políticos e técnicos, em um aeroporto, na época, internacional pois ali baldeavam os vôos para Manaus, Miami e etc. Meu tio engenheiro trabalhava na Novacap e, ainda menino, o acompanhei em imensas terraplanagens, dutos de água e esgotos sendo enterrados naquele cerrado vazio, apenas com linhas traçadas pelos tratores como que feitos por uma caneta ou lapiseira imensa, postes de iluminação urbana, "sem fios", coisa de maluco, casas e palácios de madeira, escritórios imensos de projetos em 'bangalôs" de tábuas. Via-se além do risco luciocosteano, outros, para outros pontos, para aglomerações urbanas satélites incrivelmente semelhantes às new towns inglesas os às noveaus cities francesas. Taguatinga dá de dez em Milton Caynes (é assim?). Esta visão de um possível crescimento estava alí e planejada, com vazios de rico cerrado entre as partes. Mesmo assim, no início, para alí ninguém queria ir. Fizeram uma jogada salarial, o dobro talvez, mais umas regalias como bons apartamentos funcionais e otras cositas más, passagens aéreas, etc. O que ninguém percebeu de início é que parte destes apartamentos foram repassados e de alguma forma, criou castas e afastou os menos favorecidos para área períférica. Juntou-se a isto o fantástico dinheiro circulante - trabalhos em embaixadas, autarquias, bancos, hotéis, etc.- majorados a nível nacional, produzindo uma imensa quantidade de subprestadores de serviços - milhares de jardineiros, empregadas domésticas, pequenos serviços e, penso eu, milhares de despachantes - a caça deste resto dos fartos salários. Migração por motivos óbvios e logo após, migrações por motivos completamente loucos, produzidos por políticas de incentivos deturpadas, por um crescimento provocado por um pseudo planejamento governamental, eleitoeiro e outras eiras absurdas, transformam a capital num celeiro de populações desassistidas, ocupando espaços vazios, verdes, etc. e etc. fáceis de serem percebidos no seu absurdo e atual contexto. Lembro-me bem do espanto que causou quando descobriram que moradores favelados ao lado do zoológico passaram a se alimentar de caça, caçavam no zoo animais de vários e exóticos sabores. Hoje o zoo já não basta. Novo Gama, Nova Basília I, II, Taguatinga 2, Ceilândia 5, quantas forem possíveis é o que consideram planejamento hoje, estes políticos de trajetória duvidosa. Antes, no começo, me parecia bem planejada. Não podemos criticar nossos utópicos por pensarem, e, no meu ponto de vista, bem. Aarão Reis, para Belo Horizonte, não conseguiu prever tanta gente, mas conseguiu preservar todo um manancial em torno da sua cidade e hoje, temos todos os problemas das cidades brasileiras, mas água não é um deles, é um exemplo. Brasília é realmente uma grande cidade, com muita chance de se acertar - claro que antes precisamos mudar pelo menos um pouco este país e as eleições estão aí para comerçar - já São Paulo, com Maluf, muitas dúvidas e muitas novas AutoBans; o Rio, com o Fernandinho Beira-Mar, talvez. O Nordeste, totalmente viável, o Centro-Oeste também, é só começar. Como? Não sei, mas esta é minha utopia.

[Sylvio de Podestá, arquiteto e editor, Belo Horizonte MG]