| De:
Ricardo Rocha
Data: Monday, November 18, 2002 10:44 AM
Assunto: Terrain Vague
Caro Fabiano,
Dessa vez, para mal
ou para bem - não sei se toda unanimidade é burra, mas
não custa nada desconfiar - descordo em número, grau e
outras coisas. A noção (há quem diferencie conceitos
e noções) de "terrain vague" é mesmo
muito vaga. Mas mesmo reconhecendo a importância do discurso (linguagem)
para a organização do pensamento e da ação,
para uma crítica que se quer radical (e se não o quiser
não serve pra nada) mais vale a advertência de Chico Buarque:
aja duas vezes antes de pensar (curiosamente no mesmo ano em que era
"lançado" o terrain en vogue - desculpe o trocadilho
- no congresso da UIA em Barcelona, defendia meu TFG sobre... os vazios
entre a Ponte Seca e o Tancredão! E a Marthinha era da banca.
Pois é, coisas [e pessoas] vêm, vão...). Ora, o
problema é que propor "o" terrain vague como zonas
que fogem a lógica do capital(1) é dizer que a alternativa
ao sistema é a marginalidade - seja herói, seja marginal!
Pura balela! Basta ver a arrogância cínica com que um analista
do New York Times refere-se ao fato de que na China "outra grande
trava é que muitas empresas pertencentes ao Estado ocupam áreas
que agora valem ouro. Mas essas indústrias, muitas das quais
são improdutivas desde os anos 50, relutam em sair de seus espaços,
dando local a novos e mais valiosos prédios, como escritórios
de primeira classe e shoppings"(2). Portanto, nada de vague pois
eles são absolutamente funcionais ao sistema: sua (i)lógica
predatória (do sistema) vai transferindo investimentos de uma
zona da cidade (e do mundo) para outra, criando vazios e degradações
que servem como reserva para futuras inversões de baixo custo
e alta lucratividade - e sabe-se que os consumidores deslumbrados acompanham
o mercado para onde quer que ele vá (gentrification
é o termo).
E sempre vai ter
alguém pra dizer "pois é isso mesmo, vamos preservar
o vazio, o espaço público". Não vou, obviamente,
tratar aqui da ideologia do espaço público, mas quanto
a preservar o vazio, para quê? Já vivemos sob o signo do
vazio! - e é bom não esquecer que havia uma praça
no falecido WTC. Já havia "entrado" nessa discussão
antes. Na última vez pra desarmar a petulância acadêmica
de um atelier internacional que decretava só existirem cinco
alternativas de ocupação do Marco Zero dos atentados de
11 de setembro. Oras bolas, pra qualquer um que tenha rudimentos de
raciocínio lógico-matemático havia mais um. Como
se tratava de ocupar tudo, cuidei, usando a máscara de Salman
Rushdie, de não permitir a saída fácil do tipo
"não foi elencada porque é absurda, impensável,
etc". O Abílio disse que gostou do "espírito
que anima[va]" a colocação. Não sei se ele
percebeu mas o registro - o tom se você preferir - era ambíguo.
Conflito forma/conteúdo, diria o Abílio e eu complemento
lições machadianas: Bentinho escreve o texto porque se
trata de presente de grego. Francamente! Preservar o vazio em memória
dos mortos no atentado. O único memorial possível ali
é o das vítimas das guerras e do terrorismo promovido
pelo estado americano - 500.000 crianças iraquianas mortas só
nas sanções à Saddam Hussein - entre as quais se
encontram as do WTC. Ou alguém acha que todo esse ódio
é gratuito? Ou tem dúvida que uma parte considerável
da população americana apóia Bush? É esse
o verdadeiro espírito americano: há gente preocupada somente
em recuperar a metragem quadrada perdida (afinal lá estão
os aluguéis mais altos do mundo)(3). Enquanto intelectuais americanos
como Gore Vidal esforçam-se em mostrar ao mundo que ainda existe
inteligência crítica (e não apenas eficiência
orgânica) por aquelas bandas, nós aqui na América
do Sul... Memorial WTC, francamente...
Abraço
Notas
(1) "These strange
places exist outside the city's effective circuits and productive structures.
From the economic point of view, industrial areas, railway stations,
ports, unsafe residential neighborhoods, and contaminated places are
where the city is no longer. Unincorporated margins, interior islands
void of activity, oversights, these areas are simply un-inhabited, un-safe,
un-productive. In short, they are foreign to the urban system, mentally
exterior in the physical interior of the city, its negative image, as
much a critique as a possible alternative". Ignasi de Sola-Morales
Rubio. Terrain Vague. Anyplace. Cynthia C. Davidson (ed.), the MIT Press,
Cambridge, Massachusetts.
(2) Folha de São
Paulo. Dinheiro B 4. Segunda-feira, 28 de outubro de 2002.
(3) "Alquileres
comerciales de NY en las nubes". El Observador. Enonomía
p. 20. Montevideo, domingo, 10 de noviembre de 2002.
[Ricardo
Rocha é arquiteto e urbanista pela UFES (Vitória - ES)
e professor do Departamento de Arquitetura da UFSM, Santa Maria RS]
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