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ano 3, vol. 4, nov. 2002, p. 059
Rio de Janeiro RJ Brasil
   
 

Quem tem medo de Jean Nouvel? O Guggenheim no Rio de Janeiro
Clarissa Moreira e Pedro Rivera

     

Envolto numa atmosfera de rejeição por parte da opinião pública, o projeto para o Guggenheim Rio é realmente um “prato cheio” para todo tipo de crítica negativa, talvez nem tanto pela arquitetura, mas por todo o contexto envolvendo sua idealização. No entanto, ele não deixa de nos propor questões de interesse.

Num entendimento bastante diverso daquele que gerou o edifício do museu Guggenheim em Bilbao – uma cidade industrial apagada e cinzenta – onde Frank Gehry projetou um edifício que teve a força de se tornar o ícone local, Jean Nouvel, quando convidado a fazer um projeto para o Rio, uma cidade com elementos tão particulares e significativos, respondeu com um projeto cujas primeiras imagens sugerem a opção por um insuspeitado mimetismo, como estratégia de ocupação daquelas águas da baía, incorporando elementos do antigo porto, que corre riscos de desaparecer.

Assim como o Instituto do Mundo Árabe, às margens do Rio Sena, se funde à paisagem de Paris, apesar de seu aspecto tecnológico, este Guggenheim também se funde à paisagem carioca. No entanto, ele vai além do exemplo parisiense, extrapolando as noções de arquitetura como edifício, adquirindo aspectos do imaterial, do sonho e do fantástico.

O Guggenheim inauguraria em território carioca a “estética do desaparecimento”, de que fala o também francês filósofo Jean Baudrillard? A estética do desaparecimento pode ser entendida como um modo de resistência à estética “vigente”. Dentro de uma política urbana de criação de valores através de imagens, em meio a tão adorada estética comercial "barata", o Gug Rio nem mesmo é um edifício. Seus volumes são dispersos e fragmentados: o cilindro enferrujado, a floresta invertida (!?), as chaminés, a gigantesca tela, contribuem para criar a sensação de que aquilo é uma paisagem efêmera, como uma ilha que se esconde e reaparece atrás das brumas. Mas é a sua deliberada recusa em ser um edifício monumental, sua disposição em submergir diante da cidade ou de somar-se a ela, discretamente, que mais fortalece a idéia do desaparecimento.

 
     
   

O quanto a proposição deste não-edifício nos desconcertará? O quanto ele nos perturbará, como um anticlímax da espera por uma “arquitetura monumental” na cidade? Em retorno a tanta balbúrdia, numa cultura que nos incomoda o tempo inteiro com seus excessos publicitários, o projeto nos responde com imaterialidade e mistério. Este mistério não é o do projeto ser mantido a sete chaves pelos empreendedores. Este mistério é sugerido pelas primeiras imagens de uma obra que não se revela facilmente. Por trás deste mistério, uma pergunta:

Quem tem medo de Jean Nouvel?

Quem teme a perturbação de um campo estagnado – o da arquitetura nacional – que por esta mesma estagnação é sujeita a ser ignorada e desprestigiada pela falta de um concurso internacional?

Lúcio Costa, um dos maiores arquitetos brasileiros foi buscar Le Corbusier para a idealização do antigo Ministério da Educação, marco da arquitetura brasileira: as fronteiras do mundo não deveriam cercear a troca, o embate e o diálogo.


Leia sobre o mesmo assunto LEONIDIO, Otavio. A arquitetura do desacontecimento. Arquitetura.Crítica, n. 011, abril 2003

     

Clarissa Moreira é arquiteta, mestranda do curso de urbanismo PROURB-UFRJ, gerente do Programa Novas Alternativas da Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro

Pedro Rivera é arquiteto (FAU-UFRJ, 1997) e atua no campo de reabilitação urbana e de bens históricos, sendo um dos autores dos projetos de recuperação do Ver-o-Peso (Belém), Distrito Cultural da Lapa, Paquetá-Orla, Centros Integrados de Cultura (CIC) e projetos habitacionais no centro do Rio de Janeiro. Atualmente participa da exposição Penso Cidade com a proposta “Pocket-City”

   
     
    Minha Cidade 059 - novembro 2002
   

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