De: Vittorio Corinaldi
Data: Tuesday, December 03, 2002 6:24 PM
Assunto: Guggenheim e outros

Li com interesse em Minha Cidade do Portal Vitruvius (informativo de novembro 2002) as notas polêmicas sobre o novo projeto de Jean Nouvel para o Museu Guggenheim do Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, foi divulgado na imprensa israelense um projeto de Frank Ghery para um "Museu da Tolerância", a ser erguido em Jerusalém.

Não tenho em mãos mais do que os mínimos dados gráficos superficiais que foram publicados. Portanto qualquer comentário meu pode pecar por preconceito ou opinião unilateral.

Por outro lado, o trabalho de ambos êsses arquitetos é amplamente conhecido, e as obras que os fizeram internacionalmente focalizados testemunham inclinações intelectuais e estéticas que permitem externar juízos críticos sobre os dois projetos, mesmo sem conhecê-los em profundidade.

Sobre o Guggenheim da Guanabara devo dizer que concordo plenamente com os conceitos emitidos por Rodrigo Azevedo no mesmo número de “Vitruvius”. À parte das justas considerações do comentarista sobre o melhor uso que poderia se dar aos fundos destinados ao projeto, e apesar de não subscrever a priori o antagonismo que arquitetos locais sempre manifestam diante de encargos a profissionais extangeiros, não vejo porque Nouvel tenha mais créditos para enfrentar a tarefa do que colegas brasileiros. A lembrança do convite de Lucio Costa a Le Corbusier não estabelece um justo paralelo entre as situações: Le Corbusier, mais do que projetar concretamente as obras cariocas para que foi chamado, tem o mérito de ter despertado toda uma geração de arquitetos para a abertura revolucionária que colocou o Brasil na vanguarda do Movimento Moderno, estabelecendo uma linguagem original e autêntica que por longo tempo muitos tentaram imitar. E a mensagem que trouxe era a afirmação de uma nova poética que espelhava uma radical mudança de atitude frente à estruturação do meio ambiente.

Nouvel ou Ghery – cada um com os acentos expressivos que lhes são característicos – apenas dão uma vestimenta tecnológica sofisticada a construções visuais que nada têm de intrinsecamente renovador ou revolucionário.

Paulo Mendes da Rocha ou Joaquim Guedes (para citar só dois nomes de meu imediato conhecimento) não são menos capacitados do que Nouvel para o desafio cultural de um projeto da envergadura do Guggenheim. Ao contrário, são menos suspeitos de se deixarem tentar por curiosidades tecnológicas do tipo das do Instituto do Mundo Árabe, curiosidades que tendem a ofuscar características mais essenciais da concepção arquitetônica.

Niemeyer, Reidy ou Lina Bo Bardi já deram prova de competência em projetos de museus, inclusive em entorno semelhante ao proposto para o Guggenheim.

Esta afirmação não se baseia num princípio de defesa dos interesses da classe profissional local. Nem se justifica o "boicote" de artistas locais com o argumento circunstancial de uma situação de prolongada estagnação como a que caracterizou a atividade dos arquitetos brasileiros já há muitos anos (e mutatis mutandis dos israelenses), que seria a causa de uma pretensa defasagem cultural capaz de impedir uma apropriada inserção no âmbito histórico-crítico do trabalho. Não é a inatividade dos escritórios que limita o exercício intelectual que está na base da criação do arquiteto. E não poucas aberrações da iconografia pós-moderna nasceram das condições de economias prósperas e atuantes.

Igualmente, com relação ao "Museu da Tolerância" de Jerusalém, acho que se trata de uma extravagante iniciativa que certamente terá que absorver largos recursos, pouco justificáveis na atual realidade política, social e econômica de Israel: por mais impressionante que o projeto de Ghery possa ser, dificilmente poderá se explicar mais uma réplica da vistosa massa metálica contorcida de Bilbao, sem sequer ter a justificativa de incremento e renovação urbana que aquele museu trouxe à cidade.

Jerusalém é sede de inúmeras instituições e logradouros religiosos e laicos, acadêmicos , políticos, etc. Sua atmosfera dourada inspira espiritualidade e humanismo, embora nem sempre estes se traduzam em manifestações de recíproca tolerância entre os vários grupos religiosos, étnicos ou políticos que convivem na cidade.

Em Jerusalém encontra-se o "Iad Vashem", austero e eloqüente memorial do Holocausto – o mais terrível exemplo de intolerância que a história produziu. Qualquer outra tentativa de complementar a mensagem que ele se propõe transmitir está fadada ao fracasso e não poderá ultrapassar a categoria de espetáculo teatral. Mesmo que este se desenvolva no cenário espantoso de uma obra de Ghery, e se auxilie em dispositivos visuais e museológicos da mais alta qualidade.

E também neste caso, como provavelmente no do Guggenheim carioca, permanece a amarga sensação de que projetos desse tipo, mais do que servir uma autêntica função social, histórica e didática, visam glorificar seus autores e os mecenas políticos ou executivos que lhes fornecem os meios de concretização.

É justo que a  arquitetura procure outorgar um significado simbólico a suas formas. É preciso, porém que tal significado não ultrapasse o limite de um equilíbrio com os outros fatores determinantes do fazer arquitetônico: dentre os quais não pode se contar o ego incomensurável, que não mede despesas e que sujeita os conteúdos às formas, criadas ao redor de discutíveis abstrações filosóficas ou de duvidosas associações de pensamento.

[Vittorio Corinaldi, arquiteto, Tel Aviv, Israel]