| De:
Ricardo Rocha
Data: Monday, December 09, 2002 11:50 AM
Assunto: Quem tem medo de Jean Nouvel?
Venho acompanhando
este fórum de debates e não tinha a mínima intenção
de entrar na discussão - não conheço suficientemente
bem o Rio e não vi as imagens do projeto de Jean Nouvel - mas
depois do email de Vittorio Corinaldi me "animei". Escrevendo
esta mensagem ao mesmo tempo em que sai o texto, já publicado
na Folha, de Guilherme Wisnik sobre a Praça do Patriarca (muito
mais "intel(e)gível" pra quem não mora em São
Paulo com as fotos de Nelson Kon), não posso deixar de fazer
uma (outra) abordagem "enviesada".
Entre o deslumbramento
regado a Romanné-Conti de ter "um Jean Nouvel" e o
puro xenofobismo fico com as opiniões mais críticas e
conseqüentes. O "caso" repetitiva e enfadonhamente citado
de Le Corbusier, como lembra Vittorio Corinaldi (de uma vez por todas!),
não é um "precedente": apesar de toda a confusão
posterior sobre a autoria do MES, Le Corbusier foi convidado como consultor
de uma equipe de arquitetos brasileiros que incluía entre outros
o próprio Lucio Costa, principal responsável pelo convite,
e Reidy ambos com realizações significativas àquela
altura (como se sabe a "revelação" de Niemeyer
ocorre durante o episódio).
Para não me
alongar mais - acho que o debate já tem alguma consistência
e não tenho muito o que acrescentar - apenas duas coisas:
1)por que então
não tornar, de fato, o exemplo da consultoria de Le Corbusier
um precedente: todo arquiteto estrangeiro que trabalhar no país
deverá fazê-lo auxiliado por jovens arquitetos brasileiros.
Talvez assim o processo, tão desejado por uma certa elite(?)
cultural, de "renovação" da arquitetura tupiniquim
aconteça até mais rápido.
2)brasiliense, pensei
que nunca mais iria me "deslumbrar" com Niemeyer. Mas no MAC...
dizer que ele não se relaciona com entorno? Depois de subir a
rampa girando 360o vislumbrando toda a paisagem (natural e construída)
circundante, a geometria simples do prédio se transforma numa
"revelação": como muitos já intuíram
antes, é como se a (exuberante) paisagem do Rio fosse introjetada
pelo olhar permitindo uma outra mirada sobre as obras (no meu caso uma
bela exposição sobre concretismo/ neoconcretismo). Possível
imaginar mais interação entre arquitetura/ paisagem/ obras
de arte?
Está aí,
portanto, com todas as letras e m3 de concreto: ao contrário
do que já chegaram a afirmar - vide Fundação Iberê
Camargo - sobra competência e talento, caso da última intervenção
de Paulo Mendes da Rocha, aos arquitetos brasileiros. Bastar querer
(ou ter saber) para ver.
PS: curiosamente,
Niemeyer lê Baudrillard há pelo menos dez anos.
[Ricardo Rocha é
arquiteto e urbanista pela UFES (Vitória - ES) e professor do
Departamento de Arquitetura da UFSM, Santa Maria RS]
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