| De:
Moisés Lopes
Data: Friday, January 10, 2003 12:34 AM
Assunto: Quem tem medo de Jean Nouvel
Quando soube, pela
primeira vez, da intenção de construirem uma filial do
Museu Guggenheim no Rio fiquei, de certa forma, entusiasmado com a idéia.
Idealisticamente, comecei a pensar nos benefícios sócio-culturais
que tal evento poderia nos proporcionar e, porque não dizer,
a sonhar com a possibilidade de participar de um concursos para a escolha
do melhor projeto. Sim, porque se a construção é
em nossa Cidade, nada mais justo que participemos dela, em todos os
níveis de atividade por ela demandada.
Esperançoso, escrevi
ao Diretor do Museu Guggenheim, Mr. Thomas Krens, a quem fiz várias
indagações de preocupação sócio-cultural
e sugeri a realização de um concurso, como uma maneira
democrática de estímular novos talentos e politicamente
correta de prestigiar a arte nacional. Como resposta obtive apenas a
confirmação do recebimento da missiva. O ano foi passando
e as notícias de arranca-rabos políticos foram circulando,
na disputa por quem merecia ter o privilégio de acolher, no Brasil,
de braços e pernas abertas, mais uma filial do museu Guggenheim
– incondicionalmente. Como cidadão me senti injuriado com
as parcas fotos que vi na imprensa sobre um projeto acabado e logo depois
com notícias que davam como certo o fechamento do contrato até
o final de janeiro de 2003. Indignado, escrevi ao Prefeito, em 13 de
dezembro, pedindo explicações. Não creio que as
terei.
Por tudo isso, devo
concordar com quem disse que o museu contemporâneo abandonou o
conceito clássico de museu – como espaço de transmissão
de cultura a gerações - para transformar-se em meio de
promoção publicitária de grandes empresas que patrocinam
grandes exposições e eventos de diversão pública.
Assim, pode-se dizer que a Fundação Guggenheim é
autora dessa transformação, pioneira na modalidade franquia
de museu e como tal impõe ao mundo suas cláusulas em troca
de revitalizar cidades cinzentas ou reurbanizar regiões decadentes
de grandes cidades, tendo por meta promover o turismo e gerar negócios.
Enfim, o museu de hoje é um espaço show business.
Se traz tanto benefício
assim, tudo bem, vamos contratá-los. Mas se não é
tão prioritário quanto, por exemplo: o investimento em
transporte de massa - digno e barato; em educação e saúde
- com melhoria efetiva do salário de seus profissionais, vamos
estudar melhor, sem pressa, repensando o custo benefício, escolhendo
a melhor idéia ou projeto através de concurso público
multi-profissional, nacional ou multi-nacional, ouvindo arquitetos,
artistas plásticos, intelectuais, ambientalistas, museólogos,
economistas, vereadores, partidos políticos, associações
comerciais, de hotelaria, de agências de turismo, enfim, a parte
da sociedade carioca que se preocupa, pode e deve fazer alguma coisa
para manter esta Cidade Maravilhosa por gerações.
Quem tem medo de Jean
Nouvel?
Tem medo de Jean Nouvel
quem se sente impotente diante do abuso de um Poder Público que
pretende fechar um contrato milionário de uma franquia de museu,
submetendo-se a todos os caprichos e exigências do franqueador,
enfiar o projeto goela abaixo do povo carioca, sem consultá-lo,
botar a conta em nome do Município e ao final de dois anos, galgar
mais um degrau político, deixando a Baia de Guanabara ainda mais
poluída com uma construção que mais parece uma
refinaria de petróleo.
Tem medo de Jean Nouvel quem
temia por um "repolho desconstrutivista" de Frank Gerhy e
deve estar chorando (ou não) diante do jazigo de uma "floresta
tropical", ornado por um tanque enferrujado e uma lápide
gigante, com direito a epitáfio - em neon, para ser visto das
curvas do MAC – "Aqui jaz uma floresta que, em sua insignificância,
morreu de vergonha da exuberância da Mata Atlântica, mas
teve enterro de primeira, ao som milionário da Marseillaise"
Tem medo de Jean Nouvel
quem gostaria de ter tido a sorte dele, de ter sido "o escolhido",
ficar milionário e mais famoso, que a esta altura já gritou
p'ra sua equipe de seniors e juniors Arquitetos: Allons enfants
de ma Patrie, vit! vit!, construir quelque chose numa aldeira carioca
d'un pays pas sérieux, parce que le jour de gloire est arrivér.
Em outras palavras: Companheiros, eles toparam! É hora de tirar
o pé da lama. Ora vamos, gente! Quem não gostaria de pegar
uma empreitada dessas?
Tenho medo de Jean Nouvel
porque não tive a oportunidade de competir com ele.
PS.:
1) Aos autores deste canal
de comunicação, meus agradecimentos pela oportunidade
de expressar minhas opiniões e parabéns pela iniciativa.
2) As citações
aos senhores Thomas Krens, Jean Nouvel e ao Prefeito nada têm
de pessoal. ML
[Moisés Lopes
é arquiteto, Rio de Janeiro RJ] |