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Paulo
Afonso Rheingantz A afirmação de Sirkis de que os críticos ao projeto do Guggenheim não passam de uma “meia dúzia” de “detratores” que “nem sequer conhecem o projeto” e a simples comparação com os procedimentos adotados pela Prefitura de Nova Iorque com relação ao projeto do WTC – os projetos selecionados dentre um grupo de 10 trabalhos estão disponíveis e fartamente ilustrados na Internet na internet, possibilitando sua análise e crítica – são evidências gritantes de que apenas ele, o prefeito (Ave) César Maia e uns poucos seguidores sabem o que é bom para a cidade. Não é estranho o fato de que professores das escolas de arquitetura locais, especialmente os da FAU - que tem dois programas de pós-graduação - e da UFF não tenham sido formalmente convidados para participar do misterioso evento com Nouvel? A vinda ao Rio de um arquiteto com o renome de Nouvel às custas dos cofres públicos não deveria ter tido uma melhor divulgação e uma maior aproximação com as faculdades de arquitetura locais, de modo a que os atuais e futuros “incompetentes arquitetos tupiniquins” pudessem sorver seu conhecimento "divínico"? Tudo indica que a surpreendente chegada de Nouvel – cujo ego, a exemplo do Prefeito César Maia, não combina com esta falta de mídia – tenha sido intencionalmente programada para evitar a presença dos críticos ao “seminário”. Ao que parece, o evento, péssimamente divulgado, foi concebido apenas para reunir aqueles que são favoráveis à proposta explicitarem sua louvação ao nosso "ilustre" (Ave) César? Se houvesse um mínimo de transparência e seriedade por parte dos responsáveis pelo empreendimento, não teria sido sensato convidar professores, pesquisadores, arquitetos e cidadãos efetivamente compromissados com o futuro da cidade do Rio de Janeiro para validar ou não os argumentos e o projeto ainda desconhecido dos cariocas, exceção feita ao pequeno grupo de iluminados centuriões de (Ave) César? Com relação ao pouco que foi divulgado do projeto de Nouvel me parece, no mínimo, espantoso que exatamente na cidade com a maior floresta tropical urbana do mundo, se proponha um arremedo (ou seria uma metáfora?) de aquário-floresta encravado em um buraco de 30 metros abaixo do nível do mar? Esconde-se as árvores que poderiam amenizar o percurso dos passantes, enquanto os passeios, a exemplo do Caminho Niemeyer, configuram-se como coletores de radiação solar seguindo na melhor tradição da arquitetura européia de clima frio? Sem querer entrar no mérito das críticas de Sirkis ao modernismo e de seu confesso reconhecimento das idéias de Jane Jacobs(mas infelizmente não das suas práticas), a afirmação de que o “Rio é a cidade mais linda do mundo” merece um pequeno reparo: o Rio já foi uma cidade bonita; mas uma ação conjunta envolvendo o descaso e o desrespeito do próprio poder público, a avidez do mercado imobiliário e uma grande parcela de irresponsabilidade profissional de um grupo de arquitetos com eles alinhados, não passa de uma cidade medíocre implantada em um dos mais belos cenários naturais do mundo. A continuar o andar da carruagem, em breve a cidade e seus edifícios “inteligentes” funcionarão como um verdadeiro tapume escondendo as reconhecidas maravilhas de sua paisagem, complementadas por objetos estrabólicos como o edifício Mourisco, como diversos empreendimentos da "Barralândia", como o MAC - que, mesmo sendo em Niterói, participa do cenário esplendoroso da Baía de Guanabara - e como a proposta de Nouvel. Se “a responsabilidade de governá-la imensa ... desperta paixão”, gostaria de lembrar ao nosso secretário que esta paixão não é nem nunca foi exclusividade do poder público e muito menos de seus governantes e arquitetos. Parodiando Luiz Fernando Veríssimo, eles têm feito coisas verdadeiramente inomináveis nesta sofrida cidade. Os comentários a respeito dos arquitetos de sua preferência evidenciam uma atitude “neo-vanguardista” de Sirkis que, pelo visto, se considera o único "iluminado" capaz de saber o que é melhor para o Rio. Seu discurso soa idêntico ao do dilema de uma madame emergente para escolher qual costureiro contratar para renovar seu enxoval. Por outro lado, sua crítica ao que chama de “corporativismo xenófobo” é absolutamente contraditória, uma vez que na própria entrevista afirma que os críticos não passam de uma dúzia. Sua irresponsabilidade ao estender a toda uma categoria profissional que tanto tem contribuído para divulgar o nome do Brasil e do Rio de Janeiro, por sua competência e talento, é revoltante. Enquanto isto, nossos órgãos de classe silenciam ... A afirmação de que “toda metrópole internacional digna do nome tem projetos de arquitetos internacionais” desvia o foco do real problema, que não é a contratação de um arquiteto estrangeiro, mas o processo que permite que um ou dois iluminados emergentes resolva como gastar milhões de dólares de recursos públicos em um projeto que ninguém, além deles dois conhece. Para finalizar, gostaria de sugerir que Sirkis e seu (Ave) César abandonem o projeto Guggenheim e liderem o grupo que "amavelmente" foi por ele convidado a ir para “Pindamonhangaba”. Frases como esta, além de revelarem o tamanho do seu sensamento, servem apenas para fazer fumaça e para envergonhar a cultura carioca. [Arquiteto, Professor
e Pesquisador da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro RJ] |
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