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ano 3, vol. 6, jan. 2003, p. 061
Rio de Janeiro RJ Brasil
   
 

Rio sem lei
Antônio Agenor de Melo Barbosa

     

“Casas fazem uma cidade,
mas cidadãos fazem uma cividade”

J.J. Rousseau (1)

A excelente série de reportagens “Rio sem lei” que o jornal O Globo tem veiculado nas duas últimas semanas traz à tona, dentre outras, as seguintes questões:

1) Que cidade queremos para nós e para as futuras gerações de cariocas?

2) O que, objetiva e concretamente, estamos fazendo para melhorar a qualidade de vida nesta tão castigada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro?

À primeira pergunta ouso arriscar que haja unanimidade em torno da resposta: queremos uma cidade que seja capaz de oferecer paz, igualdade de oportunidades e, sobretudo, uma boa qualidade de vida para nós, para nossos filhos e netos num futuro próximo.

Já para a segunda questão, creio, não há uma resposta consensual na sociedade carioca em torno do que devemos fazer concretamente para construirmos, diariamente, uma cidade melhor, mais harmônica e mais civilizada. Tal e qual a epígrafe que abre este artigo, não custa lembrar que cividade é muito mais que a cidade física – do conjunto de casas – é, em essência, a cidade cívica, formada pelos seus cidadãos.

Assim, este pequeno, porém significativo, recorte urbano exposto nas reportagens do “Rio sem lei” evidencia a nossa incapacidade – momentânea, assim espero – de solucionar, na prática, questões relativas à nossa própria viabilidade enquanto civitas. Sobre a diametral diferença entre um simples aglomerado urbanizado e uma cidade, o célebre historiador Lewis Mumford afirma que é essencial a existência de um núcleo organizador para dirigir o crescimento e coordenar a diferenciação orgânica desta célula viva que é a cidade. Caso contrário estaremos condenados a experimentar apenas fragmentos ou “grânulos de vida urbana, onde coleções amorfas de edifícios e ruas” reproduzem apenas “as exterioridades mais evidentes de uma cidade”.

 


A ponte Rio-Niterói ao amanhecer


Cristo Redentor com Ponte Rio-Niterói ao fundo


Pão-de-açúcar

     


Lagoa Rodrigo de Freitas


Lagoa Rodrigo de Freitas


Barra da Tijuca Pedra da Gávea e praia do Pepino


Praia de Copacabana


Praia de Copacabana


Ilha Fiscal na Baia de Guanabara

Fotos tiradas do dirigível da Polícia Militar do Rio de Janeiro que circulam pela Internet

 

É sabido que a vida numa metrópole – qualquer que seja – pressupõe o sábio convívio com a diferença e com o outro. Com efeito, temos que administrar, dia a dia, pequenas e médias tensões e/ou choques urbanos que expõem, por si, os nossos diferentes interesses no uso e na apropriação dos espaços públicos.

São carros sobre as calçadas e pedestres nas ruas, o lixo jogado em qualquer lugar, a luta por espaço nos painéis publicitários, os ciclistas voadores fora das ciclovias, a truculência das autoridades e diversos outros problemas que nos aborrecem diariamente. Até nos dias de lazer e de descanso somos expostos aos engarrafamentos, arrastões, bondes de marginais e outras confusões até mais comezinhas, mas que nos atormentam em igual proporção.

Mas quais são, portanto, as diferenças entre o “Rio sem lei” e as outras metrópoles, digamos assim, mais civilizadas que a nossa? As diferenças, acredito, são duas basicamente:

1) É preciso que todos os cidadãos sejam educados para a vida urbana e para a convivência no espaço público. A urbanidade é condição sine qua non de equilíbrio, de boa qualidade de vida e, fundamentalmente, do desenvolvimento sustentável em qualquer tempo e em qualquer espaço.

Esta urbanidade é aprendida e apreendida, pioneiramente, no núcleo familiar. Eis aí, sem moralismo, a base do problema: o que ocorre com as nossas famílias – das classes mais pobres até as mais abastadas – é a completa desagregação do seu núcleo central revelada na notória incapacidade de lidar com a educação primária de seus filhos. A tão propagada ausência de limites impostos às crianças e aos jovens é, apenas, a ponta deste iceberg.

Num segundo momento, mas tão importante quanto o anterior, é tarefa da escola – da pré-escola à universidade – educar para o convívio e, sobretudo, para a tolerância com a diferença no espaço público. Também é notória a decadência paulatina da qualidade do nosso ensino – tanto público quanto privado – nos últimos trinta anos. Não é de se estranhar que simultaneamente a esta decadência do ensino, o Brasil tenha experimentado o maior, mais complexo e agora irreversível, processo de urbanização e de metropolização de sua história.

2) A outra questão é, também, nossa velha conhecida. Seu nome: impunidade. Se crimes hediondos e de colarinho branco são cometidos e os culpados não são punidos com rigor, o que o sujeito que trafega com seu carro pelo acostamento ou estaciona sobre a faixa de pedestres acha que vai acontecer, de fato, com ele?

É, pois, o desleixo com a educação – na família e na escola – e a certeza da impunidade nos pequenos delitos e atentados à nossa urbanidade que vão minando, dia a dia, a nossa própria capacidade de reação. Houve um tempo, não muito distante, que tínhamos apenas uma “segunda-sem-lei” (sic) nos arredores do Baixo Gávea. Agora é o “Rio sem lei”. A sociedade precisa reagir urgentemente, pois esta desatenção com a nossa urbanidade, como diz a bela canção do Chico Buarque, “pode ser a gota d´água”.

Nota

1
Apud MUMFORD, Lewis. A cidade na história – Suas origens, transformações e perspectivas. Martins Fontes, São Paulo, 1998, p. 108. A frase selecionada por Munford não traz a fonte de onde foi retirada e é acompanhada da seguinte nota do tradutor Neil R. da Silva: "Cidade e Cividade - À falta de palavras que traduzem as nuanças diferentes das palavras VILLE (em Inglês, TOWN) e CITÈ (em Inglês, CITY), lançamos mão destas duas, significando a primeira a cidade física, e a segunda, a cidade cívica". Usamos, portanto, no presente texto o neologismo "cividade" na mesma acepção dada pelo tradutor.

     

Antônio Agenor de Melo Barbosa é professor de Urbanismo da FAU - UFRJ, do Centro Universitário Plínio Leite (DAU - UNIPLI) e da Universidade Gama Filho (FAU - UGF)

Artigo publicado originalmente, com algumas pequenas modificações por parte da editoria, no Jornal O Globo em 27/11/2002.

   
     
    Minha Cidade 061 - dezembro 2002
   

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