De: Elena Salvatori
Data:
Sunday, February 16, 2003 10:09 AM
Assunto: Supositórios em Barcelona

Prezado Abílio: Li as três opiniões acerca de meu artigo. A primeira delas não deixa de ser interessante. Apesar de vir de parte de um não-arquiteto - a leitora do seu site é jornalista aqui em PA – pode nos informar sobre questões do imaginário, até com uma leitura menos rigorosa do que a minha. Espero que, entre uma Torre de Pisa e outra, os progressos na ciência de construir poupem a última. Vander, que escreve desde Barcelona, está certo quando salienta as diferenças no método generativo das formas, por parte de um e outro arquiteto. Mas não se pode esquecer que isso interessa apenas à nossa categoria, o resultado em termos de cidade vem se mostrando exatamente o mesmo. Por outro lado, a esperança de que os cidadãos comuns tornem-se eruditos em arquitetura - identificando-se sem reservas com as decisões arquitetônicas -, é endêmica no meio profissional. Mas bem poucos iluminados rompem intelectualmente a barreira perceptiva que, até hoje, é melhor explicada pela fenomenologia. Além disso, estas produções espetaculares obedecem a uma lógica por demais conhecida, que entra em conflito com a natureza permanente da arquitetura. E acho que exagerei mesmo nos aspectos escatológicos. Afinal, nada garante que esta consumição resulte em uma renovação. Afinal, seguidamente a gente pensa que não pode ficar pior, mas alguém sempre dá um jeito. Acredito que Paulo Afonso foi o que mais entendeu o espírito do artigo- notícia. Gostaria de salientar os aspectos totalitários e unilaterais que acompanham a implantação destes projetos. Inclusive a revelia do próprio progresso da Arquitetura como disciplina. O conceito de democracia, em muitas situações, parece resumir-se a assegurar as condições mínimas de sobrevivência e assistência para a população que, apaziguada, daria carta branca para que os governantes façam o quê/como/onde/com quem quiserem. Até em Barcelona, o Alcalde Juan Clos, fascinado pela popularidade que o Orçamento Participativo deu ao Partido dos Trabalhadores no governo da cidade de Porto Alegre, é acusado de "populismo" quando resolve ouvir a população. Ou pelo menos, fingir que ouve. Como no caso da recente iniciativa para construção de apartamentos de aluguel módico para jovens, um grande problema numa cidade em que eles acabam ou morando até muito tarde com a família de origem, ou submetendo-se a viver em apartamentos compartidos com pessoas sem a mínima afinidade. Foi anunciada a construção de um pouco mais de mil apartamentos; em duas semanas, a demanda foi de mais de sessenta mil inscrições, para uma iniciativa que já está sendo considerada de fins eleitoreiros. Um abraço

[Elena Salvatori é autora do artigo original deste Fórum de Debates]