De: Jovanka Baracuhy C. Scocuglia
Data:
Monday, November 03, 2003 1:24 PM
Assunto: Espigoões da orla de João Pessoca

Cara Rossana, temos mesmo que dar visibilidade, "bradar aos quatro ventos" estas ações danosas que podem descaracterizar e deteriorar a paisagem e a qualidade de vida de nossa cidade. E você o faz com elegância e conhecimento de causa! Parabéns mais uma vez! Gostaria apenas de acrescentar mais alguns dados sobre o modo como a Prefeitura Municipal de João Pessoa e o Governo do Estado da Paraíba cotidianamente vêm "des-tratando" os espaços públicos da cidade de João Pessoa. Quando você relata que em 1970, no governo João Agripino, houve uma primeira ação institucional no sentido de preservar a paisagem da orla e impedir a construção de espigões, seria interessante acrescentarmos que foi nesta mesma data que o referido governador investiu altas somas de recursos públicos, de um estado pobre e com sérios problemas sociais, na construção de um hotel para turistas com área de construção de 18.576m2 avançando mar a dentro em uma área pública, pertencente ao Patrimônio da União e na qual não poderia ter sido construído absolutamente nada, muito menos um equipamento daquele porte e com recursos exorbitantes que deixavam de ser investidos em educação, saúde, alimentação etc.. Em 11 de setembro de 1971, transição do governo João Agripino para Ernani Sátiro, período de forte repressão política e crise social, foi inaugurado o referido Hotel Tambaú e com ele abriu-se um precedente para a ocupação desordenada da orla marítima. Passamos a dividir a paisagem do mar com barracas de bebidas, comidas, mercado de peixe e tantas outras atividades que, hoje em dia, impedem em certos trechos do bairro de Tambaú, a circulação livre e a visibilidade da paisagem marítima, sem falarmos da falta de higiene e da poluição da areia da praia e do mar. Hoje em dia, a Prefeitura Municipal faz 'vista grossa' e até "legaliza" através de "alvará de funcionamento" esta privatização do espaço público. O próprio deputado Ricardo Coutinho já fez várias denúncias relacionadas com a forma pouco transparente de gestão municipal das obras infraestruturais da orla marítima e de outros trechos da cidade (as tais revitalizações que acabaram se resumindo as obras de reforma no calçadão da orla, replantio de alguns coqueiros e recapeamento asfástico de certos trechos). Ações que não representam benefício algum para os moradores, nem representam incentivo ao turismo, beneficiam apenas os proprietários das barracas (muitas delas de propriedade de vereadores ou de pessoas influentes na cidade e que por isto mesmo são mantidas por um forte 'lobby'). Cada vez mais sinto que precisamos, não apenas discutir em sala de aula, mas ampliar os espaços de debate sobre a privatização, o descaso e as mudanças na legislação urbana pessoense. E você, Rossana, é uma das 'lanternas' que vêm nos guiando e nos conduzindo neste caminho de compreenssão da cidade como espaço nosso, cuja conservação e melhoria depende cada vez mais da nossa participação em diversas instâncias de poder e decisão, publicizando, cuidando e até nos arriscando para que possamos garantir um futuro melhor para nosso filhos e netos, e para nós mesmos. Esta lição já estava presente no título do seu primeiro livro "Se essa cidade fosse minha". Beijos