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4, vol. 5, dez. 2003, p. 081 Tóquio Japão |
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Calçados
sobre tatami. A "ilegibilidade" das cidades japonesas |
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No
ocidente a preocupação com simetria, perspectivas impressionantes, monumentos,
ruas e praças sempre existiu. E foi a rua, ou pelo menos a experiência
linear, o elemento essencial sobre o qual a paisagem da cidade moderna
se desenvolveu. Desde a Antiguidade a noção de cidade como uma estrutura
coletiva de espaços lineares está arraigada na cultura ocidental e continua
a funcionar como matriz para a noção de boa forma no planejamento de grande
parte das cidades contemporâneas. Entretanto, essa noção se mostra como
antítese da noção japonesa. Equivale a dizermos que se as cidades analisadas
por Lynch em The Imagem of the City seguem uma lógica predominantemente linear, em
que o tráfego e a arquitetura monumental são privilegiados, segundo o
conceito de path-and-land mark,
as cidades japonesas, por outro lado, têm poucas linhas retas, praças
e monumentos, e parecem seguir uma lógica de node-and-district. Com
exceção de Nara, Quioto e Saporo – as quais adotaram o sistema cartesiano no desenho
de suas ruas –, as cidades japonesas são essencialmente orgânicas e constantemente
consideradas ilegíveis por visitantes ocidentais. Tóquio, por exemplo,
a despeito de sua importância no cenário mundial, parece uma colcha de
retalhos mal cortados e envolvidos por ruas tortuosas,
nada similar a outras metrópoles contemporâneas. Aos olhos dos
americanos, por exemplo, acostumados a traçados tipo
tabuleiro de xadrez, como o de Manhattan, o
desenho de Tóquio parece pouco lógico e funcional. Já para os japoneses
é a linha reta que surge como o elemento estrangeiro. Segundo
o arquiteto Ashihara, a imagem caótica e ilegível
que os visitantes têm de Tóquio deve-se provavelmente ao fato de a percepção
linear ocidental ser imprecisa para a leitura do espaço japonês. Contudo,
o simples hábito de tirar os sapatos ser a primeira coisa que o japonês
faz ao chegar em casa revela a primazia do território sobre a linha na
percepção espacial japonesa, definindo o espaço da casa tradicional e
talvez nos esclarecendo algo mais sobre a resistência ao traçado linear
no Japão. Adaptada ao calor dos típicos verões úmidos, a casa nipônica tradicional teve seu piso elevado para permitir maior ventilação. No entanto, o hábito de tirar os sapatos não se justifica apenas pela diferença de nível entre a rua e a casa. Para o japonês, a despeito de razões religiosas, manter o piso de tatami incontaminado pela sujeira da rua também significa resguardar a superfície onde ele se assenta, faz as refeições e dorme, atividades que no ocidente são separadas do piso por cadeiras, mesas e camas. Na casa japonesa o tatami é o elemento espacial permanente e crucial. É ele que demarca claramente o território. As paredes, por sua vez, móveis e removíveis, feitas de painéis de madeira e papel – soji e fusuma –, são consideradas elementos temporários e secundários na formação do espaço. |
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De
outro modo, em lugares como Itália e Grécia, onde nasceu a arquitetura ocidental, a casa tradicional, paralela à rua,
teve como elemento fundamental a parede. Na Europa, os verões quentes,
mas secos, permitem que os espaços ladeados por pedras sejam agradáveis,
ao contrário do que acontece nos úmidos verões asiáticos. Para os habitantes
da "arquitetura da parede", os pisos do espaço interno e do
espaço externo possuem uma mesma ordem espacial, e a ação de tirar o sapato
ao entrar em casa não existe. Na casa européia a parede recebe maior atenção
e respeito que o piso. É ela, e não o piso, que acentua a linearidade
dos espaços e claramente diferencia interior de exterior. Para
Ashihara a ilegibilidade das cidades japonesas, aclamada
por visitantes ocidentais, pode estar, entre outras razões, associada
aos diferentes valores atribuídos à linha e ao território, ou ao modo
como cada cultura define o que vem a ser dentro e fora no espaço da casa
e da cidade. Para se ler o "texto" das cidades japonesas é necessária
uma gramática não linear, pouco difundida e ainda estranha no ocidente.
Tão estranha para um europeu que desconhece a cultura japonesa quanto
o motivo de tirar os sapatos ao entrar num restaurante em Osaka. De
acordo com Sorensen, historicamente o traçado
cartesiano implantado nas cidades de Nara e Quioto, por volta do ano 700, não teve um impacto duradouro
sobre a urbanização de outras cidades japonesas. E mesmo as tentativas
mais modernas de implantação de um sistema cartesiano, como em Saporo,
não se tornaram populares. Segundo Funahashi,
a maior parte dos japoneses ainda resiste à implantação de um modelo ocidental
linear "mais legível" no Japão contemporâneo. Assim, a adoção
do traçado linear sobre a milenar malha urbana das cidades japonesas,
ainda que as tornasse mais "legíveis", significaria a imposição
de um sistema absolutamente estranho à mentalidade espacial nipônica.
Aparentemente, algo tão difícil de ser assimilado por um japonês quanto
andar calçado sobre o tatami. Referências Ashihara,
Yoshinobu, The Aesthetic
of Tokyo, The Ichigaya
Publishing Co., Ltd., Tokyo,
1998. Ashihara,
Yoshinobu, Exterior Design in Architecture,
Van Nostrand and
Reinhold, New York, 1970. Funahashi,
Kunio, Addressing
System: Spatial Structure and Wayfinding in Japanese Towns, In: Current issues in Enviromental Behavior Research – Proceedings of the third Japanese
– United States Seminar
Held in Kyoto, Japan, July 19-20,1990, Ed. University of Tokyo, Tokyo, 1990. Lynch,
Kevin, The Image of
the City, MIT Press, Cambridge, 1960. Sorensen,
Andre, The Making
of Urban Japan, Cities
and Planning from Edo to 21st Century, Nissan Institute/Routledge Japanese Studies Series, Tokyo, 2002. |
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Simone Neiva é arquiteta e urbanista pela UFES, pós-graduada em História da Arte e História da Arquitetura pela PUC/RIO e mestre em Environment Behavior Studies pela Universidade de Tóquio |
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| Minha Cidade 081 – novembro 2003 | ||||||||||||||
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