De: Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Data: Tuesday, December 16, 2003 1:35 PM
Assunto: Brasília

Prezado Danilo: O Plano Piloto de Brasília sempre será objeto de polêmica, mesmo sendo a obra maior da arquitetura e urbanismo brasileiros. E os brasilienses terão mesmo que aturar os espantos e desencantos, os deslumbramentos e sustos que os visitantes têm todo o direito de manifestar, por todo o sempre. Não se pode negar a ninguém esse direito. A obra de excelência que é (ou foi, um dia, talvez na prancheta, pois o projeto de Lúcio Costa foi mudando desde 1957) sempre gera o repúdio dos arquitetos aos atentados contra a proposta original, sempre tem esse ranço meio aristocrático do "não estão entendendo a grande obra". Hoje mesmo o representante do IPHAN em Brasília condena as intervenções dos moradores nos jardins de Brasília, sem a menor reflexão sobre a importância da cumplicidade da comunidade na preservação de Brasília, de sua qualidade de cidade-com-gente-dentro. Lutar contra a comunidade, que introduz "sua marca" na cidade, ou buscar o confronto com os pequenos invasores das "costuras" entre as áreas comerciais e residenciais, ou contra os projetistas que contestam (com uns projetos realmente discutíveis) o purismo arquitetônico dos anos 1950, soa fútil quando se sabe que a cidade realmente tem problemas quanto a seu zoneamento, a aspectos de seu desenho, e ao modo como tem sido (autoritariamente) gerida. O Governo do DF sempre teve a cidade "nas mãos". Devemos entender a gestão da cidade desde sua mais importante sede, o Palácio do Buriti. Além disso, acho que podemos aqui debater as formas pelas quais o próprio Lúcio Costa abriu exceções, quando do "Brasília Revisitada", de 1987, espertamente aproveitadas pelos governos do DF - especialmente o governo Roriz, que colocou o Distrito Federal no rumo do desastre urbanístico e ambiental. Acredito que devemos buscar entender as transformações por que o Plano de Brasília - para melhor e para pior, como você aponta em aspectos de que não discordo - passa, mas considerando os diversos protagonistas, sobretudo o estamento do planejamento urbano burocratizado da Nova Capital, adequadamente. E, insisto, há alguma verdade nesses clichês. Agüenta, brasiliense !

[Frederico Flosculo Pinheiro Barreto - Professor da FAUUnB, Brasília DF]