De: Daniel Mellado Paz
Data: Friday, February 20, 2004 1:42 AM
Assunto: Liberdade, por José Eduardo Ferolla

Tinha uma vaga noção dessa proposta do Governador Aécio Neves. Mas o artigo do Ferolla, incisivo e ferino, completou minhas suspeitas, e cobriu quase todas as críticas possíveis a um intento tão... vamos dizer assim... na contramão das percepções sobre monofuncionalismo dos espaços e vida das grandes cidades (pô, de quando é a Jane Jacobs? vai estar defasado assim...).

Sou de fora, de Salvador (BA), e quero relatar o resultado da experiência do nosso Centro Administrativo. O papo foi o mesmo. Exemplo?

"A idéia básicade concentrar em uma só área toda a estrutura do poder público, na época pulverizado em várias partes da cidade, representava enormes despesas para os usuários dos serviços prestados, após deslocamentos excessivos e, para o Governo, despesas de locação e de manutenção das estruturas existentes." (texto extraído do site oficial da Bahiatursa)

Lá pelos idos dos anos 70. Detalhe: hoje em dia o dito Centro Administrativo, situado no mais forte vetor de expansão da cidade, AINDA é contramão para muita gente. Na época, em que o entorno era mato e brejo, imagine-se que economia de transporte foi essa...

A idéia foi pinçada de um projeto mais amplo do arq. Sérgio Bernardes - na verdade, um anexo dispensável de um projeto para o Centro Industrial de Aratu; neste anexo, se idealizava uma Salvador à la Plan Voisin de Paris, que tinha um centro administrativo. Foi-se o Plan Voisin baiano, ficou a idéia do Centro. E fez-se.

OK. Tem alguns prédios belíssimos - em especial os "minhocões" que Lelé fez, pequenos prodígios da pré-frabricação. Na época da construção, outdoors diziam: "aqui [subentenda-se 'Bahia'] constrói-se o futuro sem destruir o passado".

O Centro Administrativo da Bahia sofre dos males da monofuncionalidade que bem apontou Ferolla, mais os da ocupação modernista (que tornou-se sinônimo de grandes complexos até o dia de hoje), como custo de manutenção redobrado em uma tipologia modernista esparsa, rodoviarismo forçado para ir de um prédio a outro, maltrato ao pedestre, etc.

O que poucos contam é o que aconteceu com o lugar de onde saíram as funções administrativas... que era o Centro Histórico.

A "fuga" das funções de governadoria foi uma das responsáveis pela decadência física e pelo abandono do Centro Histórico de Salvador, incluindo o Pelourinho. Aí na década de 90 gastou-se uma fortuna (e ainda se gasta, porque não acabou o processo) para revitalizar (não vou entrar nesse mérito) o resultado da fuga. Curiosamente, a mesma gestão (o mesmo político) da decisão do Centro Administrativo foi o da revitalização do Centro Histórico. Mas não se percebe a relação de causa-e-efeito... Decadência é fato da natureza, não é mesmo?

Por sorte, a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores nunca abandonaram a Praça Municipal, o centro fundacional da cidade - do contrário, aí é que o abandono tomaria conta em definitivo. Ah, detalhe: hoje é política da Prefeitura re-ocupar o Centro com edifícios administrativos, para induzir mais fluxo, e fluxo de gente com mais dinheiro, para manter o comércio e os serviços.

Enfim, esta é uma pequena crônica dos desajustes do pensamento modernista (em seu um-lugar-para-cada-coisa-cada-coisa-em-seu-lugar) e grandiloqüente que tomou conta dos arquitetos-urbanistas, e dos governantes, durante um bom tempo em nosso país. Julgava eu que, com tanta experiência e laboratórios espalhados pelo Brasil, estivesse já claro que esta não é uma alternativa das melhores. Visivelmente, me engano.

De repente, é lançar um olhar real a esses lugares. Ao Centro Administrativo da Bahia. Ao de Curitiba, que também tem uma longa história de idas e vindas. Deve haver outros, não tenho dúvidas. Não faz sentido ignorar os erros alheios para cometer, pelo menos, erros novos, na busca de algum acerto.

[Daniel Mellado Paz, arquiteto, Salvador, Bahia]