| De:
Jorge
Panazio
Data: Monday, February 23, 2004 10:40 AM
Assunto: Trem-Bala DF-Goiás
Pretensão
e pressupostos
Construção do
TAV - trem de alta velocidade (~300 km/h) no trecho Brasília
- Anápolis - Goiânia (~ 250 km), para o transporte de pessoas
(6000 deslocamentos/dia), com investimento (implantação)
de US$ 500/800 milhões.
Esse tipo de transporte
constituirá alternativa a todos os demais (avião, ônibus e carros de
passeio): as pessoas (os 6000 deslocamentos/dia) optariam, naturalmente,
por ele; que propiciará economia de tempo e contribuirá para o desenvolvimento
da Região (projeto mobilizador: internalidades e externalidades)
(Não
são fornecidas as fontes dos dados apresentados na mídia, como também
não há referências a qualquer documento que fundamente a iniciativa,
muito menos a viagem, de uma semana, dos governadores e comitiva a cinco
países europeus.)
Comentários
1. Iniciativas da natureza do TAV só deveriam ser anunciadas ou lançadas
à luz de estudos de pré-viabilidade, matrizes de necessidades/demandas
– possibilidades/ofertas, avaliação tecnológica (technology assessment),
estudos de impactos (p. ex., ambientais e fundiários), de custo – benefício,
análise de oportunidades/prioridades (locais, regionais, nacionais)
etc.
2.
Haveria que ter clareza quanto à situação atual dos meios, indústria,
serviços de transporte no Brasil; aos impactos do TAV nos demais meios
ou modos, sua integração a outras linhas ou redes ferroviárias; o custo
do não aproveitamento das ferrovias e outros modos existentes.
3.
É ingênua a hipótese de que as pessoas que transitam atualmente no trecho
(os citados 6000 deslocamentos/dia) migrem todas para o novo sistema,
embora não se deva omitir o aumento do fluxo de pessoas pelas características
ou atributos do TAV. Neste sentido, vale afirmar a importância do transporte
ferroviário para o Brasil (dimensão continental; vocação econômica e
aspirações comerciais): capacidade, conforto ou acondicionamento, segurança
e custo/preço (transporte de pessoas e de mercadorias); seu desenho,
a extensão da rede, integrada aos demais modais, pode configurar a ocupação
ordenada/estratégica do território nacional e contribuir, decisivamente,
para a exploração sustentada dos recursos naturais.
4.
Uma iniciativa como a anunciada pessoalmente pelos governadores Roriz
e Pirilo transcende o âmbito estadual (DF ou Goiás); teria de
se subordinar, se integrar, ab initio, à Infra-estrutura de
Transporte Regional/Nacional, a concepções estratégicas como, por exemplo,
os denominados Eixos de Desenvolvimento, sob o BNDES; deveria contar
com o respaldo, a apreciação prévia do Ministério dos Transportes e
ANTT, da Câmara de Infra-estrutura/Ministério do Desenvolvimento Industrial
e Comércio Exterior, sobretudo, do Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão, gestor dos importantes PPA 2004-2007 e primeiro PPP, que,
aliás, não contêm qualquer menção à iniciativa em tela.
5.
Surpreende também que as assessorias dos governadores tenham omitido
ou se esquecido dos 2 ou 3 abortados projetos do TAV no eixo Rio – São
Paulo.
6.
Conforme o GDF, o investimento inicial (US$ 500/800 milhões; não há
dados/informações sobre os custos operacionais e respectivo financiamento)
será privado, não especificando as origens (nacional e/ou estrangeira)
nem a natureza do empreendimento (“venture”). Neste sentido, valeria
indagar porque e para que os governadores estão à frente da iniciativa?
Por que os promitentes-investidores não se dirigem ao MPO, para se incorporar
ao PPP?
7.
Os governadores Roriz e Pirilo, sensatamente, justiça
seja feita, não se comprometeram financeiramente com a iniciativa, haja
vista talvez, além da Lei de Responsabilidade Fiscal, o já elevado endividamento,
especialmente em moeda estrangeira, de suas Administrações, bem como
da Federal. Esse quadro é ainda mais agravado quando se consideram as
captações para projetos de infra-estrutura em andamento. Por exemplo,
em 13/12/2003, o governador Roriz encontrou-se – em meio a uma
greve da Polícia Civil, por causa da emissão de contra-cheques sem fundos,
e a bloqueio de uma das principais vias de acesso ao Plano Piloto por
moradores da rorizista Estrutural – com o ministro Mantega,
visando a obter autorização para tomar empréstimo de US$ 300 milhões
junto ao BID e BIRD. (O curioso, para ser ameno, é que esse dinheiro
será alocado na recuperação ambiental, cujos estragos foram causados
pelo próprio governador, com suas atitudes paternalistas e promotoras
da grilagem de terras no DF.)
8.
Lacuna ou lapso igualmente grave, é não haver definição de moldura para
o desenvolvimento do projeto (engenharia básica e/ou detalhada), a produção
e o fornecimento do sistema: “turn key” (pacote) ou desenvolvimento/fabricação
local de componentes, equipamentos, vias/instalações, operação/manutenção,
logística e gestão do sistema, enfim, o conteúdo nacional brasileiro.
9.
Quanto à viagem (1 semana) de grande comitiva (inclusive deputados distritais)
à Europa (Portugal, Espanha, Itália, França, Alemanha), para “conhecer”
o TAV, valeria observar que os governadores, pelo que se sabe, (i) não
têm base/formação técnica, (ii) não teriam sido devidamente assessorados
ou introduzidos aos modernos sistemas de transporte, (iii) não teriam
participado de eventos ou grupos federais encarregados da infra-estrutura
nacional e (iv) não disporiam de documentação básica (roteiros, questionamentos,
memórias de projetos) capaz de subsidiar, decididamente, a visita aos
sistemas europeus e o diálogo com as respectivas administrações. Portanto,
não se pode dizer que eles vão “conhecer”, muito menos selecionar (benchmark),
os sistemas TAV.
10.
Além disso, não se pode dizer que a Administração Roriz seja
eficiente ou esteja acima de qualquer suspeita (alguém imaginaria não
existirem interesses econômicos poderosos, estrangeiros até, subjacentes
à iniciativa?), nem que a situação do DF e entorno dispense o dinheirama
de um projeto como o TAV.
11.
O eventual transplante e desenvolvimento, no Brasil, da concepção estratégica
de infra-estrutura integrada de transportes e, mais especificamente,
da secular cultura (engenharia, desenvolvimento tecnológico, prestação
de serviços públicos, a presença na vida das populações) ferroviária
da Europa, em especial, da França e Alemanha, requereria, desde logo,
a elevação do nível de problematização da iniciativa dos governadores
Roriz e Pirilo, para que, perdida (TBP - trem bala perdida),
não atinja os inocentes contribuintes brasileiros.
[Jorge
Panazio, Engenheiro de Telecomunicações, é professor
da UnB, Brasília DF]
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