| De:
Frederico
Deguste
Data: Sunday, February 22, 2004 8:40 PM
Assunto: Trem-Bala
Seria cômico,
não fosse trágico...
Pequi Express
Há dois meses viajei
de Frankfurt a Munichen uma distância de 400 km no IEC o mesmo trem
que nossos bravos lideres pretendem implantar ligando a Capital Federal
a Capital do Pequi (talvez com stop-over em Anápolis).
Bom esse trecho
me custou a bagatela de 85 Euros (+ ou - 100 US$) ou seja 300 reais.
Bom, acho que os porteiros de prédio com família em Goiânia vão se beneficiar
bastante com isso. Poderiam trabalhar o mês inteiro pra pagar uma viagem
(só de ida) pra Goiânia.
O custo operacional
do transporte é altíssimo porque é baseado em supercondutores de cerâmica
que necessitam de um resfriamento absurdo e constante (que na Alemanha
não é necessário 6 meses por ano) mas em Goiás (calorzinho bom pra quem
não conhece) vai consumir 300 vezes mais hidrogênio que qualquer outro
trem no mundo, e a passagem pro Tião porteiro vai subir em 50%, levando-o
a trabalhar não 1 mês, mas 1 mês e meio.
Falando de Goiás
(sendo eu expert no tema) fico curioso em saber o que vai ser das currutelas
no caminho...Quando o IEC precisa parar numa currutela (se não pára,
não faz sentido ter um trem, é mais fácil e barato voar), ele utiliza
a mesma estrutura existente dos outros trens, com pequenas adaptações.
Mas o que fazer quando não existe essa estrutura?
Acho que o governador
vai construir uma dezena de estações durante todo o trecho, sendo que
cada uma delas vai atender populações menores de 10 mil habitantes (exceto
Anápolis), vai gerar um fluxo "absurdo" de 100 pessoas por estação,
supondo que, sendo bem otimista, 1% da população total viaje pra Goiânia
diariamente (fazer sabe-se lá o que).
O custo da obra
num fluxo destes seria algo impagável nas próximas 300 Dinastias Rorizianas.
O que mais me fascina é sonhar com a possibilidade de poder ver meus
conterrâneos recebendo treinamento em alemão para operar um trem de
alta tecnologia.
Por outro lado,
o imenso fluxo de trabalhadores (com altíssimo incoming porque pra pagar
esse preço não é pra qualquer um) vai poder se beneficiar dessa velocidade.
Imaginem as grandes empresas goianas com sede em Brasília?!
Por exemplo o diretor
executivo da pastelaria Viçosa poderia viajar de Goiânia ate seu Headquarter
na rodoviária de Brasília, obter a quantidade de massa de pastel desejada
para suprir a demanda na filial da avenida Goiás em Goiânia e voltar,
tudo isso em 2 horas!!!
O enorme giro de
capital entre essas duas Megalópoles brasileiras iria sem dúvida alguma
trazer uma explosão de progresso ao cerrado, sem contar que pela primeira
vez em Brasília poderiam ser consumidas decentes pamonhas (feitas no
Goiás) e serem entregues ainda quentes na capital federal.
Bom, eu me esforcei
muito pra descobrir quais as grandes empresas que justificariam esse
trânsito de pessoal com essa urgência toda, e não consigo me lembrar
de NENHUMA empresa, nem que de médio ou pequeno porte (além da pastelaria
da rodoviária) que precise deslocar mão-de-obra. Salvo engano, também
não imagino que o fluxo de turistas e demais interessados entre as duas
cidades justifique esta insanidade. Aliás, antes de um trem bala, poderia
haver um esforço entre os dois governos para manter uma estrada decente
e 100% duplicada entre as duas Megalópoles.
O próximo passo
agora é comprar os Concordes aposentados da British Airways e tornar
real a tão sonhada ponte aérea Alexânia-Cocalzinho...
[Frederico Deguste,
engenheiro agrônomo, professor da UEM - Universidade Estadual
de Maringá, e da UEL - Universidade Estadual de Londrina e do
Cesumar - Centro Universitário de Maringá]
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