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4, vol. 8, mar. 2004, p. 091 Brasília DF Brasil |
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Liquefazendo
Brasília |
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Nostálgicos modernistas e moralistas de plantão, olheiros de Niemeyer e burocratas do Iphan, museólogos da arquitetura e demais elementos da retaguarda nacional: evacuem Brasília já! Os predinhos das superquadras já não seguem mais o modelo dos criadores da cidade? A “arquitetura comercial” está estragando a plasticidade da W3? A nova ponte sobre o lago Paranoá é uma agressão ao plano piloto? Que venha mais sujeira! Capins de todas as espécies, tomem os predinhos da Asa Sul! Gramado da Esplanada dos Ministérios: deixe-se ocupar por pacaris, araticums, bacuparis, barbatimões, muricis e gabirobas!, e protejam do sol inclemente aqueles ministérios deitados! Superquadras da Asa Norte: muito, muito mais capins!!! Campo limpo, campo sujo, campo cerrado, cerradão. É óbvio que é aqui que está a verdadeira monumentalidade desta cidade: na amplidão desses campos, naquelas distâncias intransponíveis entre uma superquadra e outra, e na pouca densidade de seu plano piloto. É notável isso sempre ter passado despercebido nas análises de Brasília: a cidade é, acima de qualquer outra coisa, um oxímoro da paisagem: um enorme descampado de gramíneas. Brasília foi uma tentativa de ocupar um grande vazio que é o interior do Brasil. Nesse sentido foi um malogro: a ocupação não foi além dos limites do Distrito Federal. O cerrado colonizou Brasília mas, claro, Brasília definitivamente não colonizou o cerrado. Brasília é uma demonstração de permeabilidade da cidade em relação a seu entorno natural; um excelente parâmetro para os ecólogos contemporâneos: prova de que podemos, sim, ocupar um bioma rico como o do cerrado sem alterar em (quase) nada um ecossistema pré-existente. Segundo seu autor, Lúcio Costa, urbanismo consiste em “levar um pouco da cidade para o campo e trazer um pouco do campo para dentro da cidade”. Mas Brasília é como uma denúncia de desequilíbrio dessa definição: cidade cuja maior virtude é ter trazido demasiado campo para a cidade. É a permeabilidade total; a aceitação de uma ordem natural sem conflitos, a perfeita simbiose de estranhos que se repelem. É o oposto da impermeabilidade pervasiva de qualquer outra cidade. Em Brasília o asfalto se perde na paisagem enquanto o verde invade o cinza, brotando por sobre o pavimento e mudando o significado de fenômenos banais -- exatamente como a fúria expressa na rodovia Transamazônica sendo engolida pela floresta. É a cidade como um “mar de espaço”, um deserto vegetal que ignora o avanço da arquitetura, permanecendo superior e indiferente, inabalável e descrente de todas as empreitadas que intencionam ocupar o território de forma convencional. |
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© Fotos Polaroids de Carlos Moreira Teixeira, continuação do ensaio “Liquefações de um Cartão Postal”, publicado no livro “Em Obras: História do Vazio em Belo Horizonte” (Cosac & Naify, 340p. 1999) |
Comparações com a cidade jardim aqui seriam equivocadas: não se trata de um acordo entre os cheios e os vazios pensados por um urbanista. Aqui quem domina o espaço é o jardim e não a cidade, mas este jardim não tem nada da racionalidade de um projeto. É simplesmente um espaço de sobra que foi ocupado de qualquer maneira, assim como o vácuo é preenchido veementemente pelos cheios que lhe são vizinhos (que aqui são os onipresentes capins e árvores de troncos retorcidos). Portanto, Brasília não é uma cidade-parque: ela o seria tivessem suas áreas verdes sido obra de algum projeto. Brasília é cerrado, uma cidade-mato, obra de uma perfeita entropia do paisagismo onde a arquitetura desempenha o papel (coadjuvante, sem dúvida) de aumentar o índice dessa entropia. [É por isso que, de uma certa forma, denúncias como o hotel vermelho na beira do lago, os prédios de Paulo Otávio, etc (sejam como que um pérgula para que trepadeiras de todo tipo ocultem-lhes!) são ladainhas bem intencionadas mas absolutamente equivocadas.] Mas por mais longo que fosse, esse texto não seria tão eloqüente quanto o ensaio fotográfico “Brasilia” do fotógrafo Emmanuel Pinard. Que fotos mais lindas e mais feias! Não aqueles ângulos estudados da catedral, sem aquelas torres gêmeas do congresso, nada que nos lembre os formalismos de seus monumentos. Mas só a verdadeira essência dessa cidade-mato: seus campos largados, os solos avermelhados, a aridez quase desértica de sua vegetação, a arquitetura em segundo plano que luta para aparecer. E a linha do horizonte como que insinuando o que todos os amantes nostálgicos de Brasília devem esquecer: que esta cidade é uma alta materialização das idéias modernistas. Não mais. Esqueçam o historicismo de Aldo Rossi e a cidade genérica de Reem Koolhaas – esta última, principalmente, não vai nos levar a lugar algum. Pois agora Brasília é um novo modelo de cidade, do século XXI, sem qualquer ligação com o Movimento Moderno e com os discursos estabelecidos. É um exemplo de entrosamento entre cidade e natureza, uma arma que desarma os técnicos da FEAM: cidade de enormes potenciais inexplorados, cidade como um aumento das infinitas possibilidades de paisagem do cerrado. Brasília é isso: um exército de reserva de novas idéias bem ao nosso lado, esperando alguma reação que derrube todas as inércias acadêmicas. Não está nessa sensibilidade (contraditória e oscilantemente) ecológica o futuro de Brasília, do urbanismo, da arquitetura? |
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| Carlos M. Teixeira é mestre em urbanismo (distinction) pela Architectural Association de Londres e dirige o escritório Vazio S/A desde 1995 | ||||||||||||||
| Minha Cidade 091 – março 2004 | ||||||||||||||
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