De: Klaus Chaves Alberto e Luciane Tasca
Data: Monday, July 26, 2004 11:10 PM
Assunto: Resposta para Raphael Rodrigues

Caro Raphael,

Realmente nossa tarefa é árdua mas, incrivelmente, sempre está prometendo.

Suas perguntas epistemológicas sobre nossa profissão refletem este período de incertezas e instabilidades que nos está sendo apresentado contemporaneamente.

Mas minha reflexão vai noutro sentido e vou tentar responder retomando, a meu ver, sua principal questão: Podemos, nas atuais condições de gestão política da cidade, sustentar a idéia de que esse "urbanismo" constitui um campo técnico-científico?

Urbanismo como campo Científico seria um longo debate, mas sobre ser um campo técnico poderia afirmar sem sombra de dúvidas. Acredito até que parte de nossas dúvidas existem justamente por termos abandonado este caráter técnico para relativizarmos temas já consolidados em nome da "exceção". As principais questões da arquitetura e do urbanismo, as relacionadas diretamente com as condições de qualidade de vida do cidadão, são ofuscadas por novos temas que refletem questões ainda em formação que merecem atenção, sem dúvida, mas devem ser mais debatidas sobre sua interface com a cidade real. Quantos escritórios estão desenvolvendo projetos que trabalham o tema da virtualidade? Quantos Trabalhos Finais de Graduação estão preocupados com isso? E a pergunta que considero mais importante, quantos conseguem realmente reverter estes temas em novas potencialidades para melhorar o dia-a-dia nas cidades? O resultado final destes projetos, quase sempre, é um belíssimo discurso e um projeto que trabalha essencialmente com os mesmos temas que sempre permearam toda a história da arquitetura e do urbanismo.

Gostaria de frisar que temas como este devem ser debatidos cada vez mais. O problemas é que tentamos debatê-los como quem não tem uma profissão comprometida em intervir diretamente nas cidades. Acredito que nosso campo flexionou demais para o lado das idéias puras (área principalmente das profissões não comprometidas com uma síntese) e muito pouco para a ação atrelada às idéias.

Um projeto na cidade influi diretamente em diversas questões ambientais e sociais que podemos (e devemos) tecnicamente definir como corretos ou equivocados. No final do século XIX e início do séulo XX foram vários os arquitetos, médicos, engenheiros que se preocuparam com isto e procuraram formular diretrizes. Algo já foi feito. Devemos continuar daí e não abandonar todo este conhecimento técnico em nome de um "relativismo". O que seria da medicina se ela abandonasse seu campo de pesquisas científicas apenas porque errou violentamente no que se refere à eugenia no início so século?

Acredito que ficamos extremamente críticos e não soubemos desviar da imobilidade que isto pode nos causar.

Um grande abraço,

Obs.: Sobre sua última pergunta: vide resposta ao Pedro da Luz nesta seção.

[Klaus Chaves Alberto e Luciane Tasca são autores do artigo que origina este debate]