De: José Antônio Viana Lopes
Data: Tuesday, July 13, 2004 10:58 PM
Assunto: Minha cidade

Oi, Paula. Como vai você? Parabéns pelo artigo! Você aborda a questão da exclusão sócio-espacial de um ângulo interessante, que incorpora questões importantes da relação desenvolvimento/preservação. Parece-me que em Marechal Deodoro a preservação do patrimônio cultural (entendido de forma abrangente) está garantida por iniciativas (ainda que tímidas) do Estado e pelo reconhecimento e valorização da comunidade local. Seu artigo, portanto, sugere a possibilidade (não realizada até o momento) de exploração turística deste patrimônio como motor do desenvolvimento urbano. As referências de caráter geral que você utiliza (SANTOS: 2001, HOLANDA: 1956, BOSCHI: 1986, YÁZIGI: 2003, SANTOS: 1991, BOURDIEU: 1996) ajudam a estruturar a argumentação mas, por outro lado, não permitem uma visão mais clara das especificidades locais - o que é normal em um artigo, com espaço limitado para aprofundar as discussões apresentadas. Você cita, pelo menos, duas experiências (Salvador e São Luís) em que a exploração do potencial econômico do patrimônio construído, pela indústria do turismo ou por políticas públicas orientadas para o turismo, tem acarretado certo nível de descaracterização (transformação) deste patrimônio. E mais, o tipo de desenvolvimento alcançado nestes casos não tem minimizado as situações de exclusão sócio-espacial. No entanto, a própria história da cidade, como você defende, e as potencialidades que você aponta - principalmente no último parágrafo - se fossem consideradas em um processo de planejamento participativo que definisse projetos, normas e ações (compatíveis com aquele patrimônio e seu sistema de gestão) para o desenvolvimento de Marechal Deodoro, poderiam contribuir para a melhoria das condições de vida da comunidade. Neste sentido, seu artigo aponta as limitações das políticas públicas locais, em uma crítica necessária e bem fundamentada. Admiro a forma como você não se esquiva das contradições, seja no processo de construção do patrimônio pelas gerações passadas (com a colonização e o papel da Igreja), seja no processo de sua recepção e uso pelas gerações atuais (com a discussão do conceito de patrimônio e a sua exploração econômica). Precisamos de textos assim, que discutam a realidade de nossas cidades, com seus problemas e soluções. Um abraço

[José Antônio Viana Lopes, arquiteto, mestre em Desenvolvimento Urbano - MDU da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE]