| De:
Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Data: Tuesday, July 20, 2004 4:50 PM
Assunto: Resposta ao Presidente do IAB-DF, arquiteto Otto Ribas
Antes de mais
nada, tenho a obrigação de agradecer à Direção do IAB-DF, na atual gestão
do colega Otto Ribas, a distinção de convidar a mim e a outros colegas
para contribuírem com artigos sobre Brasília, destinados a serem divulgados
nos espaços da mídia que o IAB-DF tem conseguido.
Essa é uma iniciativa
elogiável, e não tenho a menor dúvida de que somente
pelo debate os arquitetos reconquistarão seu espaço nas
cidades – e nas políticas públicas.
Escrevi o artigo de crítica
ao CONPRESB como uma primeira colaboração, no começo
do mês, e confesso ter apreciado imensamente a condução
desse texto a Vitruvius e a outros divulgadores, nesse formato de "um
par de textos" com posições distintas.
Nessa introdução
devo ressaltar a virtude que reconheço contida nesse encaminhamento,
tão raro: confesso que me esforço por polemizar, mas dificilmente
encontro ambientes civilizados o suficiente (!), em minha candanga cidade,
para compreender que as boas discussões são de idéias,
e não de pessoas contra pessoas. Esse é um traço
cultural que persiste até mesmo entre os arquitetos – que, alguns
de nós, evitamos críticas, evitamos criticar, e consideramos
as críticas verdadeiros ataques pessoais. Bem, nem sempre são,
apesar de eu contabilizar ameaças até mesmo à minha
vida e integridade física partida de autoridades e colegas de
Brasília (isso deve ser registrado, infelizmente), em ocasiões
passadas.
Desse modo, o atual
presidente do IAB-DF, Otto Ribas, merece o elogio sem precedentes que
eu conheça, de promover e se envolver diretamente, mano-a-mano, no bom
debate. É sempre um risco.
Quanto ao que interessa:
a) Discordo do Otto quanto
a considerar o COMPRESB uma instância democrática. A sua
composição é majoritariamente governista, formada
por representantes de órgãos da Administração
Direta, do DF ou da União, assim como do Ministério Público
(que, apesar de toda a sua investidura de questor da República,
não é instância comunitária). A afirmação
de que o CONPRESB é um fórum da sociedade, infelizmente,
não subsiste.
b) Os poucos representantes
de Organizações Não-Governamentais do CONPRESB
também devem ser questionados, na medida em que não levam
a suas posições ao conhecimento dos seus representados.
Os arquitetos de Brasília não sabem o que o IAB-DF tem
defendido no COMPRESB, até hoje. Fica, então, o pedido
ao representante do IAB-DF no CONPRESB (se não me engano, o seu
próprio Presidente, embora pudesse ser qualquer um de seus representados,
caso houvesse uma Assembléia Extraordinária para a sua
escolha), para que realmente antecipe suas posições, divulgue
as discussões e as decisões tomadas, preste contas de
sua representação. Nesse caso pelo menos uma das ONGs
presentes no CONPRESB assumiria uma prática mais democrática;
c) Há uma importante
questão colocada na rica argumentação do Presidente
do IAB-DF, quanto ao fato de o Estatuto da Cidade estabelecer prerrogativas
de gestão democráticas das cidades mediante a participação
da comunidade. O Estatuto da Cidade, quanto a esse ponto, é notavelmente
retórico – e não podia ser diferente. A participação
da comunidade pode ser facilmente manipulada por um Poder Executivo
(Municipal ou Distrital) forte. A construção de formas
de participação comunitária que levem ao envolvimento
da comunidade são o mais importante problema colocado pelo Estatuto
da Cidade – e não havia como esse instrumento legal propor
uma solução. Aqui voltamos ao primeiro ponto: ou colocamos
à prova a nossas práticas participativas, ou instâncias
como o COMPRESB, onde a comunidade é minoritária, vão
ser a nossa pior retórica;
d) O CONPRESB é um
"para-choques" do Poder Executivo, e pode mascarar com essa falsa representação
democrática a realização dos piores interesses que pressionam o ordenamento
urbano de Brasília. Vejam o exemplo da "normatização da publicidade
urbana", que, alegadamente, buscou corrigir distorções criadas por uma
quadrilha de aventureiros, que iniciou uma temerária campanha de fixação
de outdoors no Plano Piloto de Brasília, às vistas do Governo
do Distrito Federal. Essa campanha inicia-se na década de 1990, assim
como as gigantescas invasões de áreas públicas por autoridades e "laranjas"
de empresários brasilienses. Em várias frentes de ação, o governo Roriz
(hegemônico desde 1988), tem criado condições para a ação de invasores
e especuladores, de terras, de outdoors, de políticas públicas. Vejam,
a seguir, o que fez o CONPRESB com o falso problema dos outdoors
em Brasília: em vez de banir o que nunca deveria ter existido (e peço
que a UNESCO me mostre um exemplar de Patrimônio da Humanidade
assaltado por outdoors de todos os tamanhos, como no caso de
Brasília), normatizou a bagunça, chegando ao cúmulo de criar novas modalidades,
e a ampliar as possibilidades de poluir visualmente a cidade. Grande
serviço prestado à cidade, esse !
e) A crítica que deve ser feita
ao CONPRESB talvez implique que o pouco de "representação social" que
tem seja majorado: onde estão os representantes dos Inquilinos ? E dos
Senhorios ? Onde estão os representantes dos Idosos (bem, há os pioneiros,
mas esses, notoriamente, não conseguem representar outra coisa que não
a sua própria heráldica, facilmente manipulados pelas honrarias de governo)
? Onde estão os representantes das Crianças ? Onde estão os representantes
das ONGs ambientais, étnicas, de direitos humanos ? Onde estão os representantes
dos Artistas, dos Críticos, dos Historiadores ? Talvez eu seja tremendamente
injusto nessa crítica ao estado atual do Conselho de Preservação de
Brasília, mas esse ambiente palaciano nunca foi democrático, e é evidente
que, até o momento, o CONPRESB somente existe por que é manipulável,
está sob o controle dos interesses que sustentam o governador populista
do Distrito Federal. Claro, esse é um ataque político à verdadeira liderança
da desordem urbana de Brasília, que não age retoricamente, embora se
delicie com a retórica dos arquitetos que defendem essa liderança e
engolem essa desordem.
[Frederico
Flósculo Pinheiro Barreto, arquiteto, professor da FAUUnB, é
autor de um dos artigos que inicia este debate]
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