| De:
Antônio Agenor de Melo Barbosa
Data: Wednesday, August 25, 2004 11:03 PM
Assunto: Feira da Prata
Muito bonito o seu
artigo Mariana, e já que você mencionou a feira, a calçada,
a banana e, principalmente, as suas memórias proustianas (de
cheiros, de gosto, de cores) depositadas na infância de Campina
Grande eu lembrei-me imediatamente - já que a feira além
de dá samba, memória e muita poesia sim - do bonito poema
"Camelôs" do Manuel Bandeira, publicado em Libertinagem.
Assim como o seu ensaio, o poema do Bandeira é puro sentido e
entra pelos sete buracos da nossa cabeça assim como esta feira
da prata que você retratou.
Camelôs
- Manuel Bandeira
Abençoado
seja o camelô dos brinquedos de tostão:
o que vende balõezinhos de cor
o macaquinho que trepa no coqueiro
o cachorrinho que bate com o rabo
os homenzinhos que jogam boxe
a perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
e as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.
Alegria das
calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
— "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar
um pedaço de banana para eu acender o charuto. Naturalmente
o menino pensará papai está malu...."
Outros, coitados,
têm a língua atada.
Todos porém
sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos
de inutilidades.
E ensinam no
tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice...
E dão
aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição
de infância.
[Antônio Agenor
de Melo Barbosa, arquiteto e urbanista, Rio de Janeiro RJ]
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