| De:
Cecília Rodrigues dos Santos
Data: Monday, September 27, 2004 6:59 PM
Assunto: Ora (direis) ouvir estrelas...
A
leitura do texto elaborado pelos arquitetos autores do projeto de restauração
do Planetário do Ibirapuera chama a atenção, em
primeiro lugar, pelo fato de se ter licitado um projeto de arquitetura
e não se ter licitado a obra correspondente, objeto de todos
os problemas levantados. O fato nos remete à já antiga,
mas ainda pendente, discussão sobre a pertinência de se
licitar projetos de arquitetura, avaliando-os segundo o critério
do "menor preço", inclusive aqueles mais especializados
que tratam também de projetos de restauro em bens tombados, como
é o caso do Planetário. Cabe lembrar que este edifício,
além de ser próprio municipal, é tombado pelo CONPRESP
e CONDEPHAAT (o IPHAN elaborou processo de tombamento apenas para as
obras de Oscar Niemeyer, sendo o parque considerado entorno, portanto
não teria que ser ouvido sobre restauro dos edifícios
lá situados). Mesmo não querendo entrar nesta necessária
e urgente discussão, é fato que trabalhar segundo critérios
de "melhor preço" ou elaborando concursos, aponta para
procedimentos mais apropriados na escolha de projetos de arquitetura.
E já existem encaminhamentos neste sentido em órgãos
públicos para provar a sua eficiência e legalidade. No
caso, vale apontar a competência técnica e responsabilidade
dos profissionais que desenvolveram o projeto, quase com certeza "no
prejuízo", e a importância de terem tornados públicos
os problemas enfrentados. Quanto à obra, segundo o texto dos
arquitetos, decidiu-se não pela licitação e sim
pela "nova modalidade de permuta de débitos de empresa privada
com a municipalidade", critério de escolha de um prestador
de serviço no mínimo arriscado em se tratando de obras
normais que dirá daquelas que exigem cuidados e conhecimentos
especiais e específicos como uma obra de restauração.
A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente deu ciência à
construtora de que ela iria trabalhar com um bem protegido por leis
estadual e municipal? E de que ela não poderia fazer barganhas
ou proceder a alterações no projeto de restauração
licitado, desenvolvido pelos arquitetos contratados e aprovado pelos
respectivos conselhos dos órgãos de preservação?
Porque, evidentemente, a Secretaria está ciente dessas exigências.
Face à gravidade da situação de desrespeito exposta
pelos arquitetos, cabe lembrar ainda que, além do proprietário
do imóvel e contratante - no caso o poder público municipal,
através da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente -, os órgão
de preservação são legalmente responsáveis
pela fiscalização da obra em curso no bem tombado, podendo
e devendo embargá-la caso não obedeça aos projetos
previamente aprovados, justificativa suficiente para a substituição
da construtora. Essa questão poderia ser resolvida pela Secretaria
e pela construtora no seio dos órgãos de preservação,
já que estes têm competência e poder para mediar
a discussão e arbitrar pela melhor solução técnica
para o bem tombado. Porém , caso os mesmos se julguem impotentes
por razões que extrapolem aquelas de cunho técnico, sempre
há o recurso de se apelar para o Ministério Público,
já que estamos falando de risco a um próprio municipal,
tombado pelo município e pelo Estado, sofrendo intervenção
imprópria paga com dinheiro público. Em
tempo: um planetário, em uma cidade como São Paulo, onde
não se tem mais condições ambientais favoráveis
para ver estrelas, é equipamento urgente e indispensável.
Além das lições sobre astronomia, poderia nos ensinar,
pobres paulistanos, a voltar a sonhar com uma cidade mais justa e mais
bonita, que respeitasse seus cidadãos... "Ora
(direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!" Pois é,
ouvi-las já que não mais me é dado vê-las.
Mas o contrasenso maior talvez seja insistir em me manifestar neste
tipo de situação, cada vez mais recorrente. Abraços
[Cecília
Rodrigues dos Santos é arquiteta, doutoranda, professora da Faculdade
de Arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie e consultora
para a área de patrimônio cultural, crítica de arquitetura
e co-autora de "Le Corbusier e o Brasil"]
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