De: Daniel Paz
Data: Thursday, October 14, 2004 8:33 AM
Assunto: Resposa a Ana Luiz Borges

Oi, Ana!

Duas coisas iniciais importantes.

Uma: a questão não está em demolir, mas em retirar. Conforme posto no texto, o edifício permite-se isso. Foi pensado para ser desse jeito. A imprensa baiana tem colocado a questão como permanência ou demolição. Um tipo de prédio como este apresenta esta outra possibilidade, como exposto no texto.

A outra coisa também está presente no texto. Temos de tomar muito cuidado com o hábito. O hábito sanciona uma série de coisas que, se prestarmos bastante atenção, não fazem sentido. A paisagem "automotiva" da Praça está tão entranhada em nosso cotidiano que consideramos aquilo como natural. A mesma coisa, em um grau bastante menor (e menos grave), acontece no meu ponto de vista com o prédio de Lelé. Acho que devemos evitar esse "usucapião do tempo", se não na contínua procrastinação das decisões, acabamos sancionando qualquer coisa na cidade, ou em edificações antigas.

Respondendo ao teu argumento. No tocante à configuração do Centro Histórico de Salvador, semelhante a Olinda, está o jogo de cheios e vazios. No caso de Salvador, esses vazios muitas vezes se abrem como mirantes para a Baía, como é a Praça Municipal. Este jogo de sístoles e diástoles do espaço é a tônica desta parte da cidade. O contraste antigo-novo não é o que se põe em questão. A Praça, como mostrei nas fotos, está composta por edificações de épocas diferentes. O próprio Elevador Lacerda é um edifício centrado na tecnologia, no engenho que é o ascensor. De novo, não é esta a questão. Mas sim a volumetria da Praça, que pode ser redesenhada com sabedoria, ainda que com o contraste da edificação moderna, com os materiais e tecnologia que forem cabidos ao arquiteto.

De todo modo, muito grato pela resposta!

[Daniel Paz é autor do artigo que originou este fórum de debates]