| De:
Daniel Paz
Data: Thursday, October 28, 2004 2:17 AM
Assunto: Resposta ao arquiteto Sylvio Nogueira
Caro Sr. Sylvio Nogueira...
Repito coisa que está
expressa no texto: HOJE, no atual estado da Praça Thomé
de Souza (que só o é no nome), a área liberada
pelo projeto de Lelé é uma solução, e não
um problema. HOJE, a dita Praça é um descalabro, evidentemente
mais consensual entre os arquitetos que qualquer obra arquitetônica,
e no entanto ela passa como algo normal. A discussão sobre o
Palácio Thomé de Souza é pauta por conta da decisão
judicial... que, a rigor, está correta em autuar a Prefeitura
e o IPHAN, independente dos juízos estéticos, por conta
da omissão da Prefeitura no momento (quando afirmou que retiraria
o prédio) e do IPHAN, que não emitiu parecer (como era
de sua competência, autorizando ou negando a permanência
do dito prédio) no momento nem se lhe ocorreu fazer isso depois.
Procrastinou-se a decisão polêmica, como é hábito
acontecer no Brasil.
Você fala sobre "intrusos
no baile"... isto é, que o edifício de Lelé
automaticamente desqualifica os demais, tornando-os "tolamente
ecléticos e/ou pretenciosos (sic)". Ou seja, sua força
e mérito estão no contraste. Eis aí uma opinião
clara. No entanto... acho que precisamos, de um modo geral, definir
o que é o trato com a pré-existência. Porque alguns
dos defensores do projeto argumentam O OPOSTO, isto é, que o
edifício, de uma maneira ou de outra, insere-se com harmonia
no local. Então, que harmonia é essa? Ou, se há
contraste, como ele opera? Se ambas as operações são
mérito ou valor, também há de se discutir. O que
não pode ser é ato volitivo de um ou outro governante
ou mandatário de qualquer espécie. Ainda mais por ser
área de patrimônio histórico.
Para mim, o que se deve ficar
claro é que: a) nem toda oposição a uma obra de
um ícone do modernismo brasileiro, e portanto de uma certa vanguarda
arquitetônica (no Brasil, ainda é), é automaticamente
uma forma de retrocesso, pelo contrário, e b) em se tratando
de área histórica, e da praça matriz da primeira
capital do Brasil, qualquer construção (e não só
a de Lelé) ou mesmo interferência móvel na paisagem
(como são os carros em um estacionamento) deve ser alvo de um
cuidadoso debate. Porque é algo considerado patrimônio
público, histórico e artístico (sim, o Centro Histórico
de Salvador deve ser considerado uma obra de arte, porque o é)
- e ainda que não fosse, seria de valor afetivo e simbólico,
por ser a matriz da cidade.
Nem a rejeição
infundada da intervenção contemporânea, nem a sacralização
do arq. João Filgueiras Lima (ainda que excelente profissional,
reconhecido internacionalmente). A discussão com argumentos claros,
expostos sobre a mesa, se faz necessária - e guarda seu paralelo
em termos de conteúdo com a discussão da Praça
do Patriarca, em São Paulo, ainda que eu considere o caso de
Salvador mais crítico pela "delicadeza" da área.
Alguns adendos: uma das coisas que se está revendo, ao menos
em Salvador, com a polêmica do Corredor da Vitória, é
a questão da arquitetura eclética parar de ser vista como
uma fase espúria da história da arquitetura (coisa promovida
pelas vanguardas do séc. XX, incluindo o Movimento Moderno),
e ter obras suas entendidas como valiosas artisticamente, e dignas inclusive
do tombamento... por isso, eu pessoalmente discordo da crítica
à tolice do ecletismo... O Elevador Lacerda é obra claramente
art-decó, ou proto-modernista como chamam alguns. E o Paço
Municipal como aí está é obra do séc. XX,
onde se retirou a cobertura eclética feita pelo Engenheiro Caminhoá
(no séc. XIX creio eu), e se reproduziu as feições
anteriores, inclusive com muitas permanências da intervenção
eclética. Ou seja, ele tem a IMAGEM de colonial, sem o ser, pois
é coisa recente.
De todos os modos, agradeço
a opinião. Cordialmente
[Daniel Paz é
autor do artigo que originou este fórum de debates]
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