| De:
Daniel Paz
Data: Friday, December 03, 2004 5:05 PM
Assunto: Resposta a Eduardo Rossetti
Caro sr. Eduardo Rossetti. Primeiro, peço desculpas
pela resposta um tanto tardia. E um tanto longa. Vou argumentar a partir
de cada ponto expresso em sua correspondência, ok?
Sobre tua opinião,
reitero o que está no texto: não se trata de eliminar.
A arquitetura prevista para a Prefeitura foi desenvolvida para montagem
e desmontagem, para o deslocamento sem o dano à edificação
– ao menos assim está exposto nos textos do próprio
Lelé. Acredito que é um reducionismo estabelecer a questão
aos extremos demolição/permanência.
Segundo: Lelé tem uma obra expressiva em Salvador,
que inclui não somente a Prefeitura Municipal, mas os abrigos
de ônibus, a Estação da Lapa, a Estação
do Iguatemi e os prédios do Centro Administrativo, entre muitos
outros. Ou seja: o arquiteto é presença obrigatória
no cotidiano da maioria dos soteropolitanos. Não tratamos de
uma obra singular - no sentido do único demonstrativo do talento
inegável do arquiteto - e, de novo, não tratamos da sua
eliminação, mas de sua remoção.
Ressalvo: minha opinião não é de
total acordo com o juiz. Apenas digo que faz sentido repensar o prédio
da Prefeitura, sendo ela uma fraude realizada pela gestão da
época (da qual o arquiteto está completamente isento),
a ver: prometeu-se ao IPHAN ser algo provisório, no que o órgão
furtou-se a emitir parecer. Isto é: temos uma obra de presença
indiscutível (aprovando-se ou não) em área central
da cidade, de patrimônio histórico com tombamento rigoroso
ao nível federal (somente o Paço Municipal, como prédio,
é tombado, ao nível municipal). E sem a aprovação
do IPHAN. Do meu ponto de vista, creio que temos de lutar pelo fortalecimento
das leis, até para que outros arquitetos não se excusem
no mesmo caso e pratiquem arbítrios diversos em nome da exceção
aberta. Sob a chancela de que "se Lelé pôde, eu também
posso".
Repito: isto não é responsabilidade do
arquiteto, e sim do prefeito da época. Pelo contrário:
à natureza da demanda, ele cumpriu com exímia competência
o que lhe foi pedido. Mas o desatino dos órgãos públicos
recai sobre a concretude de sua obra. E, quando falamos de patrimônio,
ultrapassamos o direito de autor de uma obra, ou mesmo a admiração
por um ou outro arquiteto, e entramos no terreno da coisa pública,
de algo a ser pensado coletivamente.
Remover algo não é sinônimo de esquecer
a história. Do contrário, nenhuma demolição
seria possível. E a cidade seria um contínuo processo
de sedimentação, e não uma re-escrita. Obviamente,
uma cidade assim não subsistiria por 50 anos. A preservação
de uma edificação equivale a uma escrita da história
que tem de ser coletiva.
Sobre os poucos pontos
públicos a desfrutar a Baía... não sei se concordo...
quantos mirantes magníficos a cidade não tem? Falamos
sobre uma cidade que abre as visuais esporadicamente, à maneira
de uma ocupação medieval. E não uma cidade de transparências
contínuas. Falamos aqui do próprio espírito da
cidade, de sua forma. Imputar um modelo unilateral de relacionar-se
com a visual da Bahia de Todos os Santos quiçá seja a
atitude mais extremada. Seja ignorar o genius loci. Isto é
algo a ser discutido com mais profundidade...
Não creio que o projeto valorize o vazio da Praça
- que o seria sem os benditos automóveis, no que movo minha crítica
mais enfática - pelo contrário... o dilui. Uma praça
se estabelece em seu fechamento, o vazio somente existe quando contrastante
com o cheio. Um vazio que se dilui nas fenestrações da
escada e se dilata pelo rés-do-chão do prédio,
perde sua conformação como tal.
O projeto de Lelé restitui um espaço público?
Não... seu mérito é NÃO tomar um espaço
público, uma intervenção desastrosa feita na gestão
de Clériston Andrade como Prefeito, chamada na época pela
população de "cemitério de Sucupira",
em referência à novela "O Bem-Amado". E até
qualificá-lo um tanto. Esta praça se mantém quando
Lelé suspende o prédio, e ainda cria uma área de
sombra (apesar do ar quente proveniente do condicionamento de ar do
prédio) e este é um de seus valores inequívocos,
como expus no texto.
Sobre o estado de provisoriedade de 20 anos... aí
está meu medo! Porque sancionamos uma forma de "usucapião"
em área de patrimônio histórico e artístico
que deve ser evitada a qualquer custo. Nos conformamos com acréscimos
e interferências que, descaso de uma geração, passam
a se cristalizar como imutáveis. Em um caso de mais unânime
posição, ninguém reputou como insensato retirar
os acréscimos indevidos da marquise do Ibirapuera - estava claro
que eram corpos estranhos, independente do tempo que passaram lá.
A ninguém ocorreria dizer que por se tornarem parte da dinâmica
do Parque, como de fato foram, deveriam se manter lá.
Prosseguindo, se me for dito que algo que faz parte
da dinâmica social da cidade é imutável, então
concordamos com tudo na cidade. Porque tornou-se, afinal, parte da dinâmica
social, e é contra esse sentimento de "hábito"
que me insurjo: temos de ser capazes de "problematizar" a
cidade, de rever o que consideramos como normal, e decidirmos aquilo
que melhor representa um projeto de sociedade.
O argumento da função política
da Praça não creio que se sustenta. A uma distância
reduzida da Praça Municipal, temos uma série de outras,
sem nenhuma função política, que tem papéis
importantes na cidade: a Castro Alves, a Praça da Sé e
o Terreiro de Jesus - este último o espaço público
que julgo pessoalmente o mais agradável, e síntese de
minha cidade.. e, no entanto, sem um órgão público
que o "legitime"...
Evidentemente, o Poder Público tem que estar
presente no Centro Histórico - afinal, um dos motivos da degradação
deste foi a retirada do Governo do Estado de seu local, o que lhe esvaziou
em muito... mas essa presença não implica em um uso deste
ou daquele jeito nas praças ou prédios.
Quanto à comparação com as "escolas
de lata"... Há termos, sim, porque é reflexo de um
comportamento reiterado de nossos gestores: o provisório que
se torna permanente. Não há cidade que não o tenha.
Em São Paulo há a Escola Estadual Cohab Carrãozinho
feita de placas de madeira, em 1994, na gestão do governador
Fleury Filho, em caráter emergencial e provisório (saiu
na jornal Folha de São Paulo, 26/09/04, no caderno Cotidiano)...
mais uma de muitas histórias similares, praga endêmica
de nossos governantes. Ainda que haja mais engenho & arte no Palácio
Thomé de Souza que nos demais "colegas" provisórios,
sua lógica é a mesma: passada a urgência do assunto,
migra-se para outro igualmente "urgente"...
Apesar de tantas discordâncias, o arquiteto aponta
um risco com a qual concordo: que outra obra seria levantada no local?
Isso deve ser visto com urgência e com profundidade, se a decisão
judicial for levada adiante. Não creio que se deva ter medo.
Se não agora, em outro momento, alguma outra cidade se verá
às voltas com uma intervenção contemporânea
em área central... e teremos de resolver isso de alguma maneira.
Seria um concurso? Caso sim, de qual maneira? Com parâmetros,
balizas, referências? Como assegurar a qualidade, sem tolher a
diversidade das propostas e a inovação? Esta é
a essência do dilema do trato com a pré-existência,
que é algo a ser enfrentado abertamente no Brasil, principalmente
nas cidades com forte presença de patrimônio histórico,
como Salvador.
Não é através de atalhos, de burlas
legais ou de recusas que cresceremos. O Brasil terá de se defrontar
com isso: seu crescimento, sua modernidade, terá de se ver às
voltas com a sua herança, de tempos diversos. Não faz
mais sentido a expansão irrefreada.
De todos os modos, creio que o debate é frutífero
(assim como creio precipitadas posições passionais em
defesa deste ou daquele partido, como se devessem ser estruturados em
torno de palavras de ordem, e não frutos de um debate mais consistente),
e agradeço a opinião do caro arquiteto.
Cordialmente
[Daniel Paz é
autor do artigo que originou este fórum de debates]
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