De: Eduardo Pierrotti Rossetti
Data: Monday, December 13, 2004 11:10 AM
Assunto: Resposta ao Daniel Paz

Prezado Daniel Paz,

Vou novamente argumentar em favor da permanência da sede da prefeitura de Lelé.
De fato, sua resposta é longa, o que me faz pensar que o que foi exposto lhe provocou, o que convenhamos, é muito bom para ambos!
Não abro mão deste aspecto: trata-se sim de eliminar um Lelé, sob os mais variados argumentos, expressões, eufemismos, tergiversações: a ordem do discurso é clara. Por isso, trabalhar a questão entre eliminação/manutenção não é uma redução, mas se trata de um ajuste preciso que estrutura o problema de fato: manter ou eliminar? É isso que está em jogo.

Sem dúvida que conheço as demais obras de Lelé em Salvador, mas assinalo que para além de sua expressividade, esta obra também tem sido, pouco a pouco, descaracterizada, transformada, substituída, enfim, eliminada! Há um apagamento da presença do Lelé, assim como também considero que houve um apagamento da presença de Lina Bo Bardi em Salvador. Sobre o caráter da fraude que gerou a obra da sede da prefeitura, há um impasse claro: ou caducou, ou o delito foi incorporado como tantas outras fraudes que constroem os espaços desta e de tantas outras cidades brasileiras. Não vou entrar no mérito da administração que se encarregou da obra, coisa que de fato foge do meu conhecimento, mas há outras instâncias legais para se tratar da questão que não aqui. Não creio que será possível estabelecer uma jurisprudência de “...se Lelé pode, outros podem...” pois isso, este grau de poder, dependerá sempre de quem são os outros, que projetos se tratam, que interesses estão em jogo, em que sitio se projeta, pois sabemos que o centro histórico de Salvador está repleto de desmandos devidamente aprovados.

Esta cláusula de provisoriedade articulada com a apropriação do sítio serão os grandes trunfos para apontar a remoção do edifício, não tenho dúvidas!
O perigo desta supervalorização do debate junto às questões legais e burocráticas é a perda do foco nas questões mais estritamente vinculadas ao campo arquitetônico. Eu não tenho um conhecimento tão afiado desta dinâmica para contra-argumentar todos os pontos. Embora desconfie de todos eles!

A reflexão que este debate coloca diz respeito à preservação de obras mais recentes, mais novas, em sítios com sedimentações arquitetônicas diversas... Neste caso, não deixa de ser caricato que todas as obras que configuram a Praça sejam, efetivamente, do século XX. O projeto de Lelé opera com outras lógicas, destaca e acentua outras questões bastante diversas daquelas que originaram aquele espaço. Será que estas lógicas e procedimentos estão tão deslocados e superados que se tornaram impertinentes? A permanência do projeto de Lelé nesta Praça por cerca de 20 anos, a despeito das pendengas burocráticas e legais, parece cumprir a contento parte de suas expectativas. Não deixo de entender que há um insuportável desrespeito ao autor da obra. E volto a lhe perguntar: que arquitetura será a substituta de Lelé? Ou teremos com uma nova lacuna? E... é sempre bom não subestimar a capacidade de gentrification (eugenificação) dos espaços públicos de um centro histórico já tão artificializado!

Entre a nova lacuna e uma obra competente talvez “ilegal”, eu fico com a obra!
Que se ajustem as pendengas burocráticas que,como você mesmo disse, não são da responsabilidade do arquiteto e que novas intervenções sejam mais controladas pelos órgãos competentes.

Sobre os modos de querer ver a Baía de Todos os Santos... seria mesmo outro debate, concordo, mas enfim, pressuponho que eu não seja tão ignorante quanto à natureza do sítio desta cidade, e pressuponho também que em seu relevo caprichoso, as diferentes aberturas que podem surpreender nossos percursos (estou pensando na descida da Contorno, na descida Av. Sete de Setembro, na subida da Montanha...) podem ser ampliadas com outras lógicas de percepção desta Baía. Não estou pensando numa enseada quilométrica, mas apenas em alguns pontos públicos de apreciação desta Baía. Que mereceriam ser devidamente equipados com bancos, mesas, cadeiras, lixeiras, sombras de árvores, postes de luz, um tabuleiro de acarajé... Longe de mim “...querer imputar um modelo unilateral de relacionar-se com a visual da Baía...”.Apenas lembro este OUTRO modo de ver o mar, de ter as visuais da Baía com seus navios que entram e saem, seu pôr-do-sol e seus reflexos infinitos... Trata-se de uma sugestão em termos de complementaridade, ou se preferir, de pluralidade. Pois, espaços públicos e democráticos de uso coletivo pleno, devidamente equipados para serem apropriados não devem ser algo tão intangível assim, não é mesmo!? Além disso, é conveniente lembrar que grande parte das visuais desta Baía são particulares, exclusivas. Aqui, não se trata mesmo de estar sendo extremado, sugerir estes OUTROS espaços abertos para sua contemplação.

Não vou rebater os muitos outros aspectos, e gostaria mesmo de estar mais inspirado para comentar tantas coisas das quais, aliás, discordo, mas prefiro responder prontamente para não suspender o debate, ao invés de formular diversas teses desnecessariamente. Quanto à essência de “sua cidade”, tenho absoluta certeza de que ela é muito mais sutil, milenar, sofisticada, popular e contundente, expressando-se para além dos espaços públicos citados, manifestando-se em miríades de procedimentos, valores e vivências, que não poderiam ser reduzidas às praças, aos casarios e às escalas controladas por um arquiteto.

E sei também que outros arquitetos, soteroplitanos ou não, estão agindo cuidadosamente para manter este debate e estas questões num bom nível de discussão, pensando com generosidade e inteligência a presença e a pertinência deste projeto de Lelé para nossa contemporaneidade.

“Há olhos e olhos. Olhos que sabem ver e olhos que não sabem.”

...espero mesmo, que Oxalá nos ajude!!!

Atenciosamente,

São Paulo, 10-12-2004

PS 1: se quiser continuar esta conversação, sinta-se a vontade para me contactar.

PS 2: frase de Lina Bo Bardi, extraída de crônica “Olho sobre a Bahia” (1958), no jornal Diário de Notícias abordando, justamente, questões sobre a dinâmica de Salvador.

PS 3: para saber mais sobre o “abraço” e sobre a presença de Maria Eliza Costa, converse com o arquiteto Marcio Correia Campos.

[Eduardo Pierrotti Rossetti, Arquiteto, São Paulo SP]