| De:
Bayard Boiteux
Data: Thursday, November 17, 2005 5:15 PM
Assunto: A cidade partida
A cidade do Rio de
Janeiro acorda assustada diariamente com o índice de violência, que
devagar vai se espalhando pelos quatro cantos do maior cartão-postal
do Brasil. Ao sairmos de casa, não sabemos se retornaremos em função
das balas perdidas, confrontos entre policiais e traficantes, invasões
de prédios ou ainda dos acidentes no trânsito. O problema é alarmante
e parece sem solução. Até quando vamos agüentar? Estamos transformando
nossa cidade numa prisão de segurança máxima, para sobreviver em alguns
condomínios de luxo.
Não nos cabe buscar
as origens do mal neste momento, mas simplesmente tecer algumas considerações:
o direito da cidade nasceu para dignificar a qualidade de vida do homem
urbano e mostrar caminhos legais para tal, através do estatuto da cidade.
O conceito de cidade pressupõe políticas específicas de habitação, educação,
saúde e trabalho para conseguir frear o dilúvio da violência. Seguramente,
não são os restaurantes, as casas e os hotéis por 1 real que vão resolver
o problema brasileiro, nem ainda o Fome Zero. Estamos cansados do populismo
barato e buscando cabeças pensantes que encontrem soluções. Existe um
sábio provérbio chinês que diz que devemos ensinar a pescar e não dar
peixes.
Uma das situações
mais assustadoras é a falta de uma política de salários condizentes
com as atividades da Polícia Militar e da Polícia Civil. Como pode,
um PM por exemplo, receber um salário que lhe obriga a viver escondido
dentro das comunidades, ao lado do poder paralelo dos traficantes, que
o tenta diariamente com propinas? O governo tem que rapidamente buscar
uma forma de moradia para tais funcionários públicos e rever suas remunerações.
Caso contrário, a probabilidade de corrupção aumenta.
Por outro lado, além
dos jovens das comunidades, que vislumbram no tráfico, um status e uma
forma de reconhecimento local, surgem agora os pitboys das classes médias,
criados em condomínios fechados, que passaram a aterrorizar minorias
e a noite carioca. Como se não bastassem, os mesmos filhos de classe
média resolvem delinqüir, para comprar drogas.
Acorda Brasil: quando
o Rio vai mal, o país vai pior ainda. De nada adianta passeatas nas
ruas, capitaneadas por meia dúzia de gatos pingados e membros da classe
média alta que se sentem ameaçados em suas redomas de ouro. É preciso
refletir na hora da escolha dos governantes e cobrar a materialização
de seus planos marqueteiros de responsabilidade social, apresentados
nas campanhas.
A cidade tem que se
preocupar com a geração de empregos, com as escolas em tempo integral,
com a estruturação dos hospitais, e com uma visão participativa, através
dos conselhos comunitários para entendimento de uma realidade que não
pode ficar nos sufocando, dentro de casa e precisa de um fórum de discussão.
É um grito de alerta
de um cidadão que ama essa cidade, mas que tem medo de perdê-la, se
perder dentro dela ou ser perdido por ela.
[Bayard Boiteux é
diretor do Curso de Turismo da UniverCidade e doutorando em Direito
da Cidade pela UERJ, Rio de Janeiro RJ]
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