De: Lucimara Wandscheer Mattos
Data: Friday, June 10, 2005 3:43 PM
Assunto: Casa Nova em Florianópolis

Após ler tão pesado artigo escrito por um arquiteto, que nem mora mais em nosso país (sabe-se lá o porquê), fiquei indignada. Infelizmente esta pessoa sentiu-se no direito de opinar sobre algo que ela nem se quer viu...

E por que, Gilmar Iost, o senhor não mora mais neste país, que julga tão rico culturalmente?? Preferiu render-se à produção estrangeira? Ou apenas está aprendendo a "julgar" as nossas produções (o que é muito fácil), através de olhos de pessoas que nunca passaram pela metade das coisas que nossa realidade social nos impõe?? Não deveria estar por aqui, junto de seus colegas, para ajudar a enriquecer e valorizar nosso trabalho ???????

Infelizmente vivemos em um país que relega sua própria cultura, em detrimento ao que vem do além mar. Isso é indiscutível. Mas isso vem da própria colonização, como você mesmo citou. Iremos nós, profissionais, lutar em vão contra centenas de anos de modo de viver? A sociedade é assim, o que tem valor aos seus olhos, pode não ter aos meus...

E outra coisa: você já esteve em Florianópolis, para dizer quem realmente mora por aqui? Se são realmente pessoas simples, que estejam querendo escalar a pirâmide social? São pessoas vindas de todos os lugares - muitos estrangeiros, de todos os níveis sociais, e de variados graus de instrução.

Você deveria saber, que numa sociedade capitalista como a nossa, os profissionais precisam se adaptar ao mercado para garantirem sua sobrevivência. Em Florianópolis são 2300 arquitetos, para uma população de 400 mil habitantes !!!! Não estou tentando justificar nada, pois estou bem feliz com minha participação nesta mostra, mas quem não gostaria de produzir apenas o que gosta ou julga certo, dentro de seus conceitos?

Posso afirmar, porque além de participar desta mostra, estive pessoalmente em todos os ambientes. Concordo que há vários equívocos, mas nem por isso deixa de ser expressiva, e de uma maneira ou de outra, relatar o modo de vida das pessoas neste espaço de tempo e lugar.

Para seu conhecimento, também, os profissionais foram orientados pela produção do evento, a elaborarem seus projetos considerando a casa uma "guest house", por isso os nomes que lhe soaram tão estranhos, como "varanda da contemplação", "atelier de inspirações e ócio produtivo", "boulevard das artes" ou na "sala de coleção e hobbies", "sala de degustação" , "piscina dos encontros".

Nada disso soa estranho aos olhos, ouvidos e sentidos de pessoas que visitaram a mostra, como clientes meus (vários), que têm condições de ter tudo isso em suas casas. Tampouco àqueles que sonham em ter tudo aquilo. Pois para isso serve a mostra, para inspirar, inscitar... Muitas pessoas puderam se sentir em Marseille, sem ao menos ter pisado na França... Há algum mal nisso??

Também acho que este tipo de evento tem sua parcela de contribuição para a divulgação de conhecimento. Mesmo seguindo tendências, o que existe em todos os seguimentos, a começar pela moda, chegando até a filosofia e literatura, traz algum tipo de informação que o visitante não tinha anteriormente. Muitas pessoas nem sabiam do que se tratava o provençal, ou se quer haviam ouvido falar em Arne Jacobsen...

Desafio vocês, arquitetos que se auto intitulam "sensatos", a mostrarem algum tipo de produção própria que seja realmente expressiva, num âmbito arquitetônico, antes de criticar abertamente o trabalho de profissionais que tiveram basicamente a mesma formação de vocês.

Além disso, aconselho a você, Gilmar, que se intere muito de um assunto, ao invés de esmiuçá-lo sem o menor conhecimento de causa.

Agora uma sugestão: já que você tem o acesso a um canal de comunicação tão abrangente, porque não o utiliza para mostrar trabalhos significativos para o nosso conhecimento?? Quem sabe assim possamos enriquecer um pouco nossos - medíocres - trabalhos??

Suas críticas me soaram como uma dor de cotovelo...

[arquiteta e urbanista, Florianópolis SC]