| De:
Renato Anelli
Data: Monday, June 20, 2005 4:49 PM
Assunto: Sobre o Vale do Anhangabaú
O
debate realizado no IAB SP sobre a proposta do “Viva o Centro” para
as zonas de “Calçadões” de São Paulo e para o Vale do Anhangabaú visou
abrir uma discussão pública, a partir do campo dos arquitetos, sobre
proposições que estavam sendo veiculadas pela mídia e, aparentemente,
contavam com o apoio da Prefeitura de São Paulo.
A
evolução do tema após o debate vem demonstrando que o executivo municipal
ainda está longe de ter uma posição consistente para suas intervenções
no Centro. Após conseguir amplo espaço na mídia com o apelo à segurança
pública (um conjunto de blitz policiais e a instalação de uma cerca
ao redor da Praça da República), vemos agora a abertura da Rua 7 de
Abril ao tráfego de veículos de passeio, sem qualquer obra de ampliação
das estreitas calçadas, optando-se pela perigosa solução provisória
dos prismas de concreto para delimitar uma faixa exclusiva para os pedestres.
Uma contradição com os esforços desse mesmo executivo na criação de
normas legais para as calçadas na cidade, expressos em seminário público
realizado há algumas semanas.
O
caso do Vale do Anhangabaú vem agregar mais componentes ao tema do futuro
das zonas de circulação exclusiva de pedestre.
Considero
justa e legítima as manifestações do arquiteto Jorge Wilheim no debate
do IAB e agora neste site. Trata-se de um dos nossos principais urbanistas
brasileiros, cuja contribuição para a constituição para nossa atual
visão do fenômeno urbano foi e continua sendo seminal. Através dele
muitos arquitetos da minha geração passaram a olhar a cidade real, nas
suas contradições e riquezas. O projeto do Vale do Anhangabaú insere-se
em um conjunto de intervenções capitaneadas por esse arquiteto, que
marcam o urbanismo contemporâneo brasileiro.
No
entanto, desde o momento da apresentação da proposta do “Viva o Centro”
nas páginas da revista “Urbs”, até a leitura desta última manifestação
do colega Jorge Wilheim, a minha posição contrária ao projeto de abertura
vem sendo perturbada por dois conjuntos de questões:
1
– Por quais motivos as alças de conexão entre o túnel e o sistema viário
da superfície, constantes no projeto vencedor do concurso, não foram
realizados? Seriam elas hoje úteis para melhorar a micro acessibilidade
que vem sendo reclamada pelos defensores da proposta de abertura ao
tráfego? Sem tais alças construídas, portanto sem ter sido plenamente
implantado, podemos falar que as propostas atuais alteram um projeto
vencedor de concurso?
2
– O tombamento do Vale do Anhangabaú não congelaria esse setor da cidade,
tornando-o inadequado para suportar a dinâmica inerente ao desenvolvimento
urbano? Considerando que a dinâmica da vida urbana exige e exigirá novas
intervenções urbanísticas nessa e em outras áreas da cidade, o tombamento
não seria uma medida que desloca o problema do urbanismo para o da preservação?
Por
último, gostaria de reiterar que as diretrizes da área de mobilidade
urbana (transporte urbano e trânsito) necessitam ser matizadas por um
debate urbanístico mais abrangente e integrado, coisa à qual os profissionais
que atuam nessa área não se furtam. Do predomínio do rodoviarismo nos
anos 1960 até o do pedestre e do transporte público nos últimos anos,
a área de mobilidade vem sendo preponderante na configuração das cidades
brasileiras. É hora de um balanço sem preconceitos dos efeitos urbanísticos
dessas intervenções em nossas cidades.
[Renato Anelli, arquiteto,
professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da USP-São
Carlos e Secretário de Obras do Município de São
Carlos, gestão 2001-2004]
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