De: Ruth Verde Zein
Data: Monday, June 20, 2005 6:28 PM
Assunto: Qual é a pergunta?

Prezados colegas

Tenho acompanhado os debates sobre a abertura ou não do Vale do Anahangabaú e de outros setores pedestrianizados do centro. Em todos, me parece que o debate já começa pelo meio, e falta a pergunta inicial: afinal, porque seria necessário mudar alguma coisa? E, será a solução que vem sendo aventada - a meu ver, desfocada - o caminho para atingir essa necessidade?

Deseja-se aumentar a freqüência de pessoas no centro? Mas o centro é super bem freqüentado – embora, talvez não pela elite amedrontada que não anda de ônibus ou a pé. Deseja-se que os usuários de carros tenham livre acesso ao centro? Por que isso seria necessário ou prioritário? Quantos casos há de centros históricos em todo o mundo, tão ou mais importantes do ponto de vista do patrimônio, que vedam o acesso de carros? E, nem por isso, as pessoas em geral, e visitantes em particular, deixam de freqüentá-los!

Se há um problema de acessibilidade, será o carro a solução? Para quem?

Se se deseja incrementar a freqüência ao centro, será isso atingido dando mais espaço a carros ou dando maior animação urbana ao lugar que se conseguirá isso? Se houvessem, por exemplo, restaurantes e cafés, mesas na calçada, espaços culturais e comerciais, voltados para o Vale do Anhagabaú - isso não atrairia muito mais gente, do que abrir ali uma via de carros? Precisa ser o Vale um parque semi-vazio bucólico ou poderiam mais pessoas animá-lo? E será que carros conseguirão isso?

Se houvessem atrativos adequados, as pessoas não iriam? Quem deixa de ir a Veneza porque ali não entram carros? Como São Paulo poderia mostrar a todos que seu centro é belíssimo, que está se renovando, que vale a pena reconhecê-lo e freqüentá-lo, porque é um patrimônio de todos nós paulistanos que devemos cuidar dele muito bem: será deixando uns poucos entrarem com seus carros?

Afinal, qual é o problema em pauta – para se poder, com clareza, debater qual seja a solução?

[Ruth Verde Zein, arquiteta, crítica de arquitetura e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, São Paulo SP]