| De:
Regina Rocha
Data: Tuesday, June 21, 2005 7:30 PM
Assunto: Em defesa do Vale do Anhangabaú (sem carros)
Caros amigos,
Trabalho no centro, na região
da República. Gosto de andar a pé, e muitas vezes caminho
até o metrô São Bento na saída do batente.
No percurso, o primeiro impacto é a tristeza pelo estado de abandono
da praça da República e rua Barão de Itapetininga,
tomada (privatizada) pelo comércio ambulante, que gera barulho,
lixo, deterioração urbana...
Mas, assim que chego às
escadarias do Teatro Municipal, a sensação vai mudando...
desço os degraus, e repentinamente cessa o barulho dos carros;
o que se vê são casais de namorados no famoso jardim, entre
palmeiras e canteiros bem cuidados (principalmente perto da fonte, revelando
um certo romantismo fora de moda que sobrevive, pelo menos por lá).
O mais interessante do Projeto
do Vale do Anhangabaú é ter levado em conta essa atmosfera
suave do jardim (acho que levou), criando uma certa continuidade por
toda a extensão do calçadão. A calma se espalha
naquela amplidão. O silêncio é quebrado por ruidosos
bandos de periquitos empoleirados nos altos (altíssimos) postes
de luz e por entre as árvores. A cidade ali se acalma. É
a vez do cidadão sem carro.
[Aqui uma pausa: claro
que tem gente pobre, mendigo, desempregado, as prostitutas defronte
ao cine Cairo. Só o que é preciso é acostumar a
classe média a essa convivência; não há conflito
algum. O problema sim é o lixo que os bares próximos da
boca do metrô deixam largado em sacos no chão. Tem também,
fazer o quê?, a presença antipática – mas
até certo ponto neutra – dos seguranças do Bankboston
e do aparato móvel da polícia. E o abuso de alguns automóveis,
autorizados, mas que trafegam ali sem reduzir a velocidade.]
O que importa é que
o projeto arquitetônico fez dali um espaço civilizado,
justamente pelo afastamento dos carros da área... É um
dos raros, em meio ao caos central, e deve permanecer assim, como um
direito da população.
O Anhangabaú é
o local para grandes celebrações. E nos finais de semana,
fotografar dos altos do Viaduto do Chá, do Vd. Sta. Efigênia,
é programa para pobres - bolivianos, interioranos, paulistanos
- e gringos (certamente alguns holandeses entre estes...)
Para dar Vivas ao Centro, só
se for preservando o projeto do Vale do Anhangabaú, um dos poucos
feitos com consciência da importância de resgatarmos nossa
convivência social.
É isso!
[Regina Rocha, jornalista,
São Paulo SP]
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