|
|
||||
| De:
Mário Yoshinaga O assunto Vale do
Anhangabaú trata de circulação de carros e de pedestres.
Tem seus aspectos positivos e negativos, segundo as observações
dos debatedores e do autor do projeto vencedor do concurso. Tirar os
carros do centro e obrigar os seus usuários a caminhar mais de
100 metros por calçadões parece, à primeira vista,
algo perfeitamente natural. Mas não é tão simples
assim, se considerarmos que um aspecto pouco considerado pela engenharia
de trânsito é a necessidade da continuidade da qualidade
da viagem. Quem sai de um carro e caminha por um calçadão,
além de pisos mal conservados, ambulantes (fixos) que atravancam
a passagem, sujeira, marginais, guerra de guarda-chuvas em dias de chuva,
sol escaldante e falta de sombras no verão, e ainda o perigo
de ser atropelado pelos veículos especiais autorizados... Imaginem
alguém todo arrumadinho portando um notebook, entre outras coisas...
Que atração para os trombadões! Não estou
defendendo os usuários de carros. Estou tentando mostrar que
a engenharia de transito só nos anos 90 chegou a propor uma integração
dos trilhos; e só recentemente, no século XXI, propõe
que o transporte deve ser estudado com enfoque no usuário. E
que acrescento a questão da qualidade DA VIAGEM!! Não
adianta ter qualidade de trechos ou de modais. Não adianta sair
de um metrô e ter que se enfiar num lotação e viajar
em pé num veículo que não tem altura suficiente
nem para pessoas com altura mediana. Ou ter que caminhar por calçadas
que são verdadeiras amostras de materiais de sobras de obras
ou de criatividades atentatórias à segurança dos
pedestres. Ou de aguardar os ônibus em dias de chuva, sob coberturas
que não protegem do vento e de água da sarjeta jorrada
pelos pneus dos carros sobre as pessoas, algumas delas empoleiradas
sobre os bancos... Quem se habilita a enfrentar tais diferenças
de qualidade numa única viagem? E se a pessoa estiver carregando
pacotes, bolsas, criança, livros, e até coisas maiores
e valiosas, como enfrentar os perigos de abordagem inconveniente? Não,
não é apenas resolver impor o pedestrianismo, justamente
por aqueles que só gostam de caminhar onde tem ar condicionado
e escadas rolantes. Essa imposição pode ter resultado
no esvaziamento do centrão, segundo um relato que devo ter lido
numa revista de pouca circulação, algo como jornal de
bairro. Diz que um empresário desceu do carro e caminhou algumas
quadras pelo calçadão até a sua empresa. No caminho,
cercado de seguranças, perguntou ao seu assessor se os seus clientes
também precisavam fazer a mesma coisa que ele, e o seu assessor
confirmou. Pois então, disse o empresário, vamos precisar
de outro local para a nossa empresa. Pensando em recuperar essa "qualidade
de viagem" para o centrão, coloquei minha sugestão
no artigo "Infra-estrutura urbana: ruas subterrâneas" [Mario Yoshinaga, arquiteto, doutor pela FAU-USP e Professor na Universidade Guarulhos] |
||||