De: Mário Yoshinaga
Data: Monday, June 27, 2005 9:24 PM
Assunto: Minha Cidade 135 - Anhangabaú

O assunto Vale do Anhangabaú trata de circulação de carros e de pedestres. Tem seus aspectos positivos e negativos, segundo as observações dos debatedores e do autor do projeto vencedor do concurso. Tirar os carros do centro e obrigar os seus usuários a caminhar mais de 100 metros por calçadões parece, à primeira vista, algo perfeitamente natural. Mas não é tão simples assim, se considerarmos que um aspecto pouco considerado pela engenharia de trânsito é a necessidade da continuidade da qualidade da viagem. Quem sai de um carro e caminha por um calçadão, além de pisos mal conservados, ambulantes (fixos) que atravancam a passagem, sujeira, marginais, guerra de guarda-chuvas em dias de chuva, sol escaldante e falta de sombras no verão, e ainda o perigo de ser atropelado pelos veículos especiais autorizados... Imaginem alguém todo arrumadinho portando um notebook, entre outras coisas... Que atração para os trombadões! Não estou defendendo os usuários de carros. Estou tentando mostrar que a engenharia de transito só nos anos 90 chegou a propor uma integração dos trilhos; e só recentemente, no século XXI, propõe que o transporte deve ser estudado com enfoque no usuário. E que acrescento a questão da qualidade DA VIAGEM!! Não adianta ter qualidade de trechos ou de modais. Não adianta sair de um metrô e ter que se enfiar num lotação e viajar em pé num veículo que não tem altura suficiente nem para pessoas com altura mediana. Ou ter que caminhar por calçadas que são verdadeiras amostras de materiais de sobras de obras ou de criatividades atentatórias à segurança dos pedestres. Ou de aguardar os ônibus em dias de chuva, sob coberturas que não protegem do vento e de água da sarjeta jorrada pelos pneus dos carros sobre as pessoas, algumas delas empoleiradas sobre os bancos... Quem se habilita a enfrentar tais diferenças de qualidade numa única viagem? E se a pessoa estiver carregando pacotes, bolsas, criança, livros, e até coisas maiores e valiosas, como enfrentar os perigos de abordagem inconveniente? Não, não é apenas resolver impor o pedestrianismo, justamente por aqueles que só gostam de caminhar onde tem ar condicionado e escadas rolantes. Essa imposição pode ter resultado no esvaziamento do centrão, segundo um relato que devo ter lido numa revista de pouca circulação, algo como jornal de bairro. Diz que um empresário desceu do carro e caminhou algumas quadras pelo calçadão até a sua empresa. No caminho, cercado de seguranças, perguntou ao seu assessor se os seus clientes também precisavam fazer a mesma coisa que ele, e o seu assessor confirmou. Pois então, disse o empresário, vamos precisar de outro local para a nossa empresa. Pensando em recuperar essa "qualidade de viagem" para o centrão, coloquei minha sugestão no artigo "Infra-estrutura urbana: ruas subterrâneas"
(Vitruvius, Minha Cidade 095, abril 2004).

[Mario Yoshinaga, arquiteto, doutor pela FAU-USP e Professor na Universidade Guarulhos]