De: Eric Verhoeckx
Data: Saturday, July 02, 2005 2:35 AM
Assunto: Não é só o Vale

Prezados/as,

A questão é mais complicada. A cidade tem seu dinamismo e seu anti-'dinamismo'. O último, no meu ver - aí falando do Anhangabaú - a partir da sua 'privatização' por acordo entre prefeitura e BankBoston, que quis um belo jardim ao seu redor e nada mais. Desde então ele morreu, serve para umas fotos, uns poucos skatters e uns pedestres (igual Regina) querendo alcançar o outro lado da 'margem'. Precisa de manutenção, mas há uma diferença entre 'manter' e 'tomar conta' e não boto fé nestas 'parcerias' entre a prefeitura e a iniciativa privada: à primeira vista parece 'legal', mas se torna mais uma forma de perder o controle do 'nosso' espaço público. A Ruth Verde Zein está certa, precisa de mais vida, como já teve, com os shows nas 6as Feiras com uma multidão assistindo. Agora tem grama que nem crente pisa. Tudo agora está bonito mas é só para ver, passar, não para pisar. Discute-se o Vale e vêm os argumentos a favor da uma abertura para o trânsito para 'vitalizar', e o arquiteto que fez o esboço do projeto, com argumentos contra. Duvido que ele tenha passado pelo Vale ultimamente. Sinto muito mas o Vale está morto! Tombar o quê? Qual foi o projeto mesmo, sobrou alguma coisa do original, em termos de uso, de sua inserção urbanística?

Tudo isso dentro de uma mega-cidade que não admite sua megacidade, até hoje sem praça cívica. O Vale é sim para ser um ponto de encontro, mas aí é definir o que e quem queremos encontrar. Regina já dá umas pistas no sentido que teremos que saber conviver com a diversidade.

Entretanto, estes dias fomos presenteados com o 'marketing' de projetos de reforma de algumas praças no centro, a da República, da Sé e Cel. Fernando Prestes. Muito bom. Ninguém vai discutir a necessidade das reformas mas há a questão do envolvimento da população, que pode se chamar de 'participação popular' e nesta linha pergunto: reforma para quem? Estamos numa fase crucial de luta para a cidade, entre a cidade 'formal', aquela que não é corrupta, do 'bem', que paga seus impostos, e a cidade 'informal', do 'mal', e que contrabandeia, que não paga seus impostos, tudo isso porque ela quer, neh?, que é a maioria nesta cidade e deste centro, com seus cortiços, seus nem tetos, suas ocupações. Muita gente vital aqui querendo viver de maneira digna, levando suas crianças à escola, morando em situação de 'risco', pagando aluguel alto, com o despejo sempre no horizonte diário e diurno e boa parte trabalhando nas ruas, nas praças - sim, uma mega-cidade precária para se morar, trabalhar e viver. Quem e o que queremos encontrar nas nossas praças?

Por quê em São Paulo 'praça' é sempre confundida com 'área verde'? O Niemeyer já questionou e acabou cedendo colocando umas palmeiras regimentadas em linhas retas no Memorial. O que é uma praça? Serve para o quê? Nossos ancestrais (sejam eles europeus, africanos, índios, caipiras, caiçaras) entenderam que era para ser um lugar cívico, de 'cultura', expulsando ou pelo menos dominando a 'natureza', de chão batido e logo que criaram a tecnologia, coberto por algum conjunto de pedras ou derivados de petróleo. É um lugar social, não é para ser bucólico. Depois, já outra época, inventaram os parques. E praça não é parque, praça é praça, parque é parque. Aí vem o conflito de uso: usando-se praça como se praça fosse, que no final praça é, batendo o pé (muitos pés porque somos muitos) naquela 'vegetação' e vêm as vozes dizendo que não temos 'cultura', não temos 'civilização'. Como não? Duvido (vendo fotografias da época), que se importavam para onde pisaram aqueles nas grandes manifestações cívicas na Praça da Sé. A Parada GLBT, ato cívico mais recente, também pisou na grama. Fazer o quê? Virar crente? Na Praça São Pedro em Roma ('o' exemplo de uma 'piazza') não há nem sequer uma remota lembrança de grama, nem de arbustos e nem de árvore, é de pedra mesmo. Uma praça não é definida pelo verde; sua 'natureza' é definida pela sua arquitetura, pela sua inserção urbanística no total da cidade onde se situa. E falo isso (e poderia falar muito mais) não para tirar as árvores e o verde das 'praças' do centro, mas sim para questionar o 'verde' do Vale do Anhangabaú que de vale não tem nada além de um nome e para São Paulo colocar à venda dois viadutos só faltam mais uns três andares.

Falando em projeto que não seja o Anhembi, que tal o Parque Dom Pedro, onde já foi gasto um absurdo de dinheiro até de fora (é chique ter um 'projeto' pago com dinheiro de fora, aumentando e acumulando a nossa eterna dívida) que está às moscas? Aí sim, vê-se uma vergonha. Primeiro porque não precisava de mais um projeto já que o projeto da Lina Bo Bardi e equipe estava bão demais. Segundo porque o projeto do Chacel é besta por mérito próprio, com seu 'espelho de água', as inúmeras concessões à 'realidade', com o viaduto que Erundina tirou e o Maluf colocou de volta, o Pita botando a pedra da Fura-Fila no meio do caminho (diga-se à parte que na estação Dom Pedro de Metrô há uma singela plataforma subterrânea à espera) e quem foi mesmo que botou o terminal de ônibus ali - como aliás, todas eles em 'praças' públicas: Correios, Bandeira, Amaral Gurgel, Princesa Isabel, etc. - o último até ganhou prêmio de 'arquitetura' para que não sei bem o que - fácil de desmontar?) e mesmo assim as ruas (públicas) do centro repletas de pontos terminais de linhas de ônibus que não cabem nos terminais. Há um acúmulo de absurdos no centro desta cidade. E pelo jeito vai ter mais.

Não estamos discutindo o Vale. Estamos falando do fim e da sobrevivência do espaço público. Os arquitetos (como os demais intelectuais) têm a obrigação de discutir e reivindicar, têm uma dívida de proporcionar uma cidade para todos, há o desafio político de apoiar e dar voz e lugar a aqueles que não os têm, questionando o 'uso formal' do espaço público, equivocado (e corrupto) e o uso 'informal' (tão corrupto). Têm que enxergar o que existe de fato neste centro e criar as condições de habitação e de trabalho dignas. O espaço público é intimamente ligado (desculpas pelo excesso de obviedade) ao seu público: ao que o busque, construa e use. Receio que as autoridades atuais, como as anteriores, não tenham a menor percepção disso. O parâmetro nunca pode ser a abstração e adequação de algo alheio. São Paulo é uma cidade única, com desemprego 'formal' de 20% e 60% da sua economia (= mulheres, crianças, homens) na informalidade. Falei sobre anti-dinamismo e políticas públicas. O dinamismo vem da percepção que a cidade é de todos/as. Há algo muito instigante no desejo da Ruth de querer restaurantes e cafés no Vale. Concordo, mas gostaria de saber quem é que vou encontrar?

[Eric Verhoeckx, holandês, autônomo, antropólogo, arquiteto, morador do centro desta cidade]