| De:
Cecília Rodrigues dos Santos
Data: Sunday, July 03, 2005 11:06 AM
Assunto: Anhangabaú
Abilio,
Na correria às
vezes deixo de acompanhar os importantes debates provocados pelo Vitruvius.
Não deveria!
Mas talvez ainda haja
tempo para meter a minha colherinha torta na discussão sobre
as intervenções propostas para ao Vale do Anhangabaú,
em São Paulo. Não para entrar no mérito das propostas
para a área, mas para chamar a atenção para um
ponto de enorme importância (“ainda e sempre” dirá
você, e com razão...) que, parece, ficou à margem
do debate, talvez porque considerada “uma questão resolvida”:
o papel da preservação do nosso patrimônio cultural,
seus instrumentos de gestão e seus instrumentos de proteção,
que incluem o tombamento.
Questão pendente,
diria melhor. É surpreendente a maneira como - desde há
68 anos quando foi promulgado o Decreto-Lei n. 25, primeiro instrumento
de proteção do patrimônio cultural no Brasil - o
tombamento vem sendo mal entendido e mal utilizado como idéia
e argumento, mas não só!
Acompanhei este debate
sobre o Anhangabaú num crescendo de espanto e, confesso, certa
melancolia. Profissionais arquitetos e urbanistas do maior gabarito
(que respeito muito, é preciso dizer) começam por lançar
uma proposta de uso do tombamento como instrumento autoritário
e arbitrário (que ele não é...), argumentando que
“cidades mudam e ocasionalmente convém redesenhar seus
espaços desde que haja motivos sérios para este re-fazer”.
E quando não convém (quando???), ou quando os motivos
não são sérios (quais são os critérios
para conferir a seriedade???): tombe-se como está! Aliás,
para que o tombamento fosse efetivado (e a instância proposta
é o Condephaat, não o Conpresp, não entendi porque...)
seria necessário reunir história e conhecimento, registros
e documentos, na elaboração do processo de tombamento,
primeiro passo para se deliberar sobre a proteção. No
final talvez se recomendasse, quem sabe, vincular o tombamento à
reconstituição do projeto de Joseph Bouvard para a área
(grande momento
de beleza e dignidade deste sítio e da própria cidade...)
ou até, a plantação de chá original com
o córrego bucólico e o velho viaduto, afinal o primeiro
braço de crescimento da cidade, do triângulo primitivo
para além vale.... Por que não? Ou, por que sim?
A réplica refuta
o tombamento com argumento, na minha opinião, equivocado mas
infelizmente transformado em “senso comum”, ou seja, que
não carece mais de justificativa: “o tombamento não
congelaria esse setor da cidade, tornando-o inadequado para suportar
a dinâmica inerente ao desenvolvimento urbano?”.
A tréplica
do autor do artigo é surpreendente. Concorda com a réplica,
afirmando que o tombamento teria sido usado no texto como um “mero
fogo de encontro contra uma idéia”, já que se trata
de uma “solução extrema à qual está
inerente um congelamento que geralmente não me agrada”.
Não é
o caso, nem o espaço, para desenvolver texto especial sobre o
assunto. Mas sim para, pelo menos, apontar a importância de se
tratar com mais cuidado e respeito intelectual as questões que
dizem respeito à história da nossa cultura, reconhecendo
que não é desconsiderando de forma apressada um de seus
principais instrumentos de proteção (quanto trabalho e
quanto conhecimento produzido para legitimá-lo...) que se irá
construir bem e melhor as nossas cidades.
No próprio
Vitruvius é possível recuperar importantes textos e sérios
debates sobre o assunto. Mas gostaria de remeter especialmente ao trabalho
de Lucio Costa como arquiteto do IPHAN na gestão do centro do
Rio de Janeiro, uma grande cidade com um número considerável
de obras protegidas. Trata-se de trabalho rico e complexo, que está
longe de ser consensual, e sobre o qual vale a pena se demorar, refletindo
sobre a questão (o livro que publica a tese de doutoramento de
Ceça Guimaraens, “Paradoxos Entrelaçados”,
e o texto de José Pessoa apresentado no seminário comemorativo
do centenário de Lucio Costa, são bem ilustrativos nesse
sentido). E ainda, porque não, remeter à atuação
do mesmo arquiteto em centros históricos da importância
de Ouro Preto, particularmente à sua defesa do projeto do Grande
Hotel de Oscar Niemeyer para a cidade, nos idos de 1940: “a boa
arquitetura de um determinado período vai sempre bem com a de
qualquer período anterior – o que não combina com
coisa nenhuma é a falta de arquitetura”.
Acredito que, ao reiterar
a sabedoria de Dr Lucio, estou me colocando nesse debate a favor de
uma dinâmica patrimonial específica - aquela preconizada
pelo arquiteto e tantos outros teóricos e profissionais atuantes
na área -, e na contra mão das idéias de “congelamento
e suas inerências”.
Acredito ainda, e
é também por isso que ainda escrevo e trabalho, que vale
a pena rever “pré-conceitos” em relação
ao patrimônio cultural no Brasil, considerando-o como parceiro
no processo de desenho e planejamento das nossas cidades. E não
parceiro “café com leite” , como costuma ser, quando
chega a ser! Parceiro de respeito - devido respeito - com voz e voto!
Evidentemente, sem deixar de lado a crítica e o debate de idéias,
porque não há outra maneira de se construir conhecimento.
Saudações
patrimoniais.
[Cecília Rodrigues
dos Santos, arquiteta e pesquisadora, professora FAU Mackenzie, São
Paulo SP]
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