| De:
Jorge Wilheim
Data: Friday, July 29, 2005 4:30 PM
Assunto: Calçadões: retrocesso e menosprezo
“What
is a city, but its people...”
W.Shakespeare (1564-1616)
É
com tristeza e indignação que tomo conhecimento da decisão
tomada pelo Prefeito de abrir calçadões ao tráfego
de veículos, interrompendo longa série de ações
na direção contrária, tomadas por sucessivos prefeitos,
atendendo estas ao reclamo do crescimento de pedestres que circulavam
pelo centro histórico e ao aperfeiçoamento urbanístico
o qual, em todas as grandes cidades em que se cuida do bem estar do
povo, abria, conservava e embelezava os espaços destinados a
pontos de encontro.
Já
na década de 70 o prefeito Olavo Setúbal implantava tais
espaços tornando civilizadas e bonitas as venerandas áreas
de interesse histórico, por onde já circulava diariamente
um milhão de pedestres; Reinaldo de Barros realiza o concurso
nacional para obter a melhor solução urbanística
e paisagística para o Vale do Anhangabaú, então
um caudaloso rio de tráfego de passagem ligando o sul e o norte
da Capital e constrangendo aquele milhão de pessoas a se acotovelar
pelos dois viadutos que o atravessavam; Jânio Quadros inicia pela
Praça da Bandeira a re-urbanização do Anhangabaú,
finalmente concluída por Luísa Erundina. Finalmente Marta
Suplicy revitaliza estes espaços levando para lá todas
as secretarias municipais, implantando a sede do governo municipal no
centro do mais significativo espaço urbano, cuidando de sua limpeza
e disciplinando as atividades que nelas se realizam. Não há
quem não reconheça que todas estas iniciativas transformaram
o Centro, tornando-o um espaço civilizado e bonito, ícone
da São Paulo de hoje.
Ao arrepio
destas ações, na contracorrente do bom senso, infenso
à opinião dos técnicos consultados pelo IAB e pela
mídia, todos contrários à nefasta idéia,
o Prefeito (e o sub-prefeito) de forma tecnocrática a autoritária
decide pelo retrocesso. Por que? A única justificativa alegada
é estapafúrdia: a ausência de tráfego teria
sido a causa da decadência do centro... Por decadência entenda-se,
na visão oficial, a diminuição de atividades comerciais.
Não há dados que comprovem tal fato. O que mudou no Centro
é a natureza do comércio, com o natural êxodo do
consumo caro para bairros de moradia correspondente. A vitalidade comercial
do Centro permaneceu alta, dedicada, no entanto, a outro tipo de consumidor.
Além do que, creio que o único comércio a exigir
a presença do veículo é o posto de serviço;
no restante é do pedestre que o comércio necessita...
Nem sequer
há, no Centro, congestionamento de tráfego, e sim de pedestres,
embora seja grande a quantidade de veículos que o cruza. O congestionamento,
como a CET poderá comprovar, se dá em vias estruturais,
como as Marginais e em algumas coletoras. O que falta ao centro são
estacionamentos subterrâneos e a continuação das
políticas públicas destinadas a atrair moradores de todas
as classes sociais, e atividades diversificadas, para que as noites
sejam tão vibrantes e seguras quanto as horas diurnas já
o são.
Esta clareza
conceitual, foi implementada pela gestão precedente e determinada
pelo Plano Diretor da Sé, tecnicamente justificado, amplamente
debatido e aprovado por lei em 2004. Então por que tomar essa
decisão? A quem atende? Ao conforto egoísta de quem quer
sempre chegar à porta de seu escritório de automóvel;
e que os outros se danem! O projeto que gerou a lamentável decisão
foi promovido por uma associação que já teve e
tem outros méritos: a de evidenciar a importância da re-qualificação
do Centro. A teimosia em levar adiante suas teses viárias, embora
só tenha recebido argumentos contrários, talvez se deva
ao fato de ter conseguido colocar na diretoria da EMURB o braço
direito do presidente dessa associação. Cabe lembrar ter
sido a própria EMURB quem implantou no Centro todos os calçadões,
desde o tempo de Setúbal, esperando-se que alterações
eventuais sejam por ela justificadas.
Finalmente, a decisão
da Prefeitura revela, além do retrocesso urbanístico e
do autoritarismo tecnocrático, um imenso e soberbo desprezo pela
população e pela cultura. Ignora o que a mídia
criticou, os protestos de usuários do espaço público
e tranquilamente passa por cima, no caso do Anhangabaú, do projeto
vencedor entre os 95 que se apresentaram em concurso, julgado por competentes
arquitetos e adequado pela experiência vivida por esse projeto
nas décadas de sua implantação (cabe ainda alertar
para outras provas de retrocesso e desprezo anunciadas, como as alterações
a serem produzidas, segundo a mídia, por “achismos”
do sub-prefeito na quase terminada implantação do Parque
d. Pedro, projetada por Fernando Chacel, eminente paisagista, escolhido
recentemente como um dos 10 mais importantes do mundo). Se há
vontade da Prefeitura em melhorar o Centro, implemente o que já
está proposto em seu Plano Diretor e nos bem fundamentados projetos
de financiamento aprovado pelo BID. Construa sobre o que já foi
feito em lugar de destruir o que a população já
conquistou...
[Jorge Wilheim, autor
do artigo que origina este fórum de debates, é arquiteto
e urbanista, autor de numerosos planos urbanísticos, entre os
quais o de Curitiba, Campinas, São José dos Campos; ocupou
duas vezes o cargo de Secretário do Panejamento de S.Paulo, além
de outros cargos públicos.no país e na ONU. Como Secretário
de Planejamento da gestão de Marta Suplicy, liderou a elaboração
do atual Plano Diretor Estratégico e dos 31 Planos das sub-prefeituras]
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