De: Euclides de Oliveira
Data: Monday, September 05, 2005 8:04 PM
Assunto: Anhangabaú

Para começar, fiquei estarrecido com a falta de ética dos membros da Associação Viva o Centro ao proporem a "motorização" do vale do Anhangabaú sem consultarem seus autores originais, a arquiteta e paisagista Rosa Kliass e o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, ambos vivos e exercendo a profissão em seus respectivos escritórios; só este fato já me basta para considerar o projeto em questão equivocado e de má fé. A idolatria do automóvel, que orienta esta proposta, é a fonte de grande parte dos males que sufocam a metrópole de São Paulo, gerando menosprezo pelo pedestre e dificultando a implantação de um sistema de transporte coletivo decente. Que mal há em "executivos" pegarem o metrô para irem ao trabalho? Não tenho dúvidas que assim chegarão mais cedo aos seus escritórios e estarão agindo como seus colegas de outras cidades civilizadas. Será que os membros desta Associação nunca ouviram falar que nossa atmosfera está no limite de saturação causada pelos gases emitidos, entre outras fontes, pelo automovel? Ações urbanas responsáveis deveriam ter como meta a diminuição dos veículos nas ruas e não facilitar ou estimular o seu uso. Mas vejo coisa pior por debaixo deste tipo de ação; não estaría aí a intenção de gradativamente "elitizar-se" o Centro, um dos poucos locais acessíveis e familiar à grande parte da população que mora nas zonas leste e norte de São Paulo, que dele seria naturalmente excluída, pelos novos tipos de comércio, pelos preços, pelo ambiente, pelos aluguéis caros? E outra coisa, meu Deus, uma cidade tem de ter referências, memória, espaços urbanos que passem de uma geração a outra sem grandes alterações; em termos de história a reurbanização do Vale do Anhangabaú acaba de ser concluída e já querem mexer nela? Assim não dá.

[Euclides de Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]